quinta-feira, 7 de julho de 2011

Reificação e utopia no ténis. Notas sobre a insuficiência das apreciações à priori

Recentemente alguém classificou o ténis como um desporto de meninas. E fê-lo socorrendo-se de uma sumidade literária, David Foster Wallace, e de um indivíduo que assina com o nome de maradona. Além da análise estar cheia de preconceitos e de indiciar um desconhecimento empírico da modalidade, o postador atribui a David Foster Wallace aquilo que ele nunca disse. Dizer que David Foster Wallace se esforça por provar que o ténis é um desporto de meninas, que desconstruindo quer dizer o «ténis não é um desporto para machos», é não ter lido, nem treslido, uma linha dos três textos que David Foster Wallace publicou sobre o ténis*. Das três uma, ou o postador está de má-fé, ou quer-se armar ao pingarelho, citando uma sumidade literária, mesmo quando o exercício de name-dropping lhe sai ao lado, ou então está a fazer batota.

Quem for ler os textos constatará a enorme familiaridade de David Foster Wallace com o ténis, que inclusivamente alimenta o sentido utópico de uma modalidade ambígua. Sobretudo quando refere a beleza cinética de uma partida de ténis, ou quando compara as pancadas de Federer, como a sua esquerda descruzada a uma mão feita em topspin, a uma experiência religiosa! Curiosamente, esta interpretação aproxima-se da realizada por João Bénard da Costa ao filme «Ordet», do Dreyer, quando comparou a ressurreição do Johannes na fita a um milagre religioso. Coisas que só os vencidos do catolicismo conseguiam vislumbrar...

Numa toada mais populista, David Foster Wallace refere ainda que quem nunca jogou ténis (e Wallace jogou ténis de alta-competição) jamais compreenderá o que é ter um bom jogo de pés, planear jogadas de antecipação (que os mais ousados costuma chamar xadrez em movimento), nem a graça, o toque, a coordenação, a subtileza, o controle e a inteligência que o ténis requer. Sem querer entrar no capítulo dos essencialismos, talvez o ténis seja mesmo para meninas, ou pelo menos para gente menos embrutecida. Para os que leram David Foster Wallace mais apressadamente, ele sumariza: «I submit that tennis is the most beautiful sport there is and also the most demanding. It requires body control, hand-eye coordination, quickness, flat-out speed, endurance, and that weird mix of caution and abandon we call courage».

quarta-feira, 6 de julho de 2011

É assim a modos que uma alegoriazinha

This way to Portugal


"habituas-te vais ver
nos primeiros tempos dói
dá vontade de vomitar
depois percebe-se que
no Luna Parque que é
um sítio triste
pode não se ser triste
sai muito caro
mas poder pode-se"

(Adília Lopes, "O Luna Parque")

(Brought to you by FNAT, Federação Nacional para a Alegoria no Trabalho)

I'm in the waste management business

It's a recession-proof business

Moody's corta rating the Portugal para "lixo".

Passos Coelho diz que corte no rating foi "um murro no estômago"

terça-feira, 5 de julho de 2011

habemus Es.Col.A na escola!

Como o projecto que está a ser estudado para a antiga escola primária do Alto da Fontinha continua atrasado, a câmara decidiu conceder ao nosso projecto uma licença provisória de utilização do espaço! Nem mais nem menos, foi esta a resposta que a vereadora Guilhermina Rego transmitiu esta manhã à delegação da Es.Col.A.

Será uma licença até ao final de Dezembro, a iniciar assim que seja assinado um contrato, cuja minuta nos será ainda hoje enviada, garantiu António Rebelo, engenheiro responsável pelo património municipal, com quem ficou agendada reunião na próxima quinta-feira, pelas 18h00.

Entretanto, na assembleia de amanhã teremos oportunidade de analisar as cláusulas do contrato, que prevê que o segundo outorgante seja uma associação com figura jurídica. "Têm de contornar a situação", contrapôs António Rebelo quando lhe foi transmitida a prerrogativa da Es.Col.A ser constituída por um grupo informal de cidadãos.

O contrato proposto pela câmara substitui a proposta de comodato apresentada pela Es.Col.A na reunião de 6 de Junho, o que nos foi justificado pelo facto de os contratos de comodato já não existirem no código regulamentar da autarquia.

Além do responsável do património, a vereadora fazia-se acompanhar pelo seu adjunto Manuel Monteiro e pela doutora Raquel, da Porto Social. A reunião teve lugar na mesma sala do 4º andar, à volta da mesma mesa da última reunião. Esta não demorou mais de 20 minutos.

Hasta la vitória siempre!

Retirado daqui

Poesia xispêteó





 
Os meus amigos e camaradas palhaços Nuno Moura e Paulo Condessa – que juntos perfazem O COPO - vão andar pela Culturona – Feira da Arte do Desenrasca por estes dias. A “fazer leituras esquisito-corporais”.

Como diz o Assis Pacheco, vão pedir a grandiloquência a outros.

Eis o programa:

O COPO – Poesia de entretenimento científico


A Culturona – Feira da Arte do Desenrasca - Palácio de Laguares - Rua Prof. Sousa Câmara 156 (Campolide, às Amoreiras)

Duas pessoas quase normais a fazer leituras esquisito-corporais, isto é, abocanhando com braços e pernas algumas transcriações de poemas xispêtêós em 3 performances poéticas ridiculamente diferentes. Espantosamente inclassificáveis tipo nunca-visto.

Quarta, 6 (19H30) : *****Dittos Mall Dittos*****
(mix internacional superlativo de Kandinsky a Herberto Helder)

Quinta, 7 (19H00) : *****O´Neill, Tás Bué Baril ? *****
(poemitas acústicos de Alexandre O Grande)

Sexta, 8 (19H00): *****Os Virgens Negras*****
(transcriações puristas, escandalosamente mais subreais
que as do Virgem Negra original, Mário Cesariny

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Poseur, moi?




Os pomposos e pífaros pintarolas que, como eu, escrevem em blogues, têm por vezes o azar de se cruzarem com gente honesta, daquela que nos diz umas verdades. Gente boa, gente de bem. Gente do bom, do bem, e do bem bom. Gente com voz de bagaço e vida dorida que, perante as nossas frases repolhudas, vocábulos retorcidos e tendência geral para armar aos cucos, grita:

E o arroz, a batata, o agrião, Cacilda!


É uma espécie de coro grego de cajado em punho, pronto para arriar nos pintarolas. Cumprem zelosamente a função social necessária de chamar a atenção do mundo para as nossas poses afectadas e bastante desconfortáveis. Como dizem os ingleses:



Ah, assim está melhor.


Para que conste: o povo rejubilou com a vitória do djokovic

"What is the world's fastest fish?"*

Ladies and gentlemen, Ed Miliband, líder do partido trabalhista britânico:


“First you think you're hearing things. Then you wonder whether time itself has developed hiccups. Finally you decide none of these people can possibly be human.”O comentário de Charlie Brooker ao vídeo acima.
A próxima vez que ouvir falar em cassetes é disto que me vou lembrar.
  *esta é apenas uma das perguntas que o entrevistador se sentiu tentado a fazer.
[embora assinada em meu nome, esta posta foi escrita e realizada pela Elisa]

sábado, 2 de julho de 2011

A pedido de várias famílias deixo-vos a transcrição de «Words of advice for young people», William Burroughs

Mais do que simples «alucinações de um drogado», estes conselhos caem que nem ginjas nestes dias. Cada um fará as suas leituras, mas parece-me que a alusão ao valor das palavras (já não há homens de palavra(s), Ruy Belo style) e a constatação de que não há pechinchas honrosas envolvendo a troca de mercadorias são setas no coração do dia. 
 
People often ask me if I have any words of advice for young people.
Well here are a few simple admonitions for young and old.
Never intefere in a boy-and-girl fight.
Beware of whores who say they don't want money.
The hell they don't.
What they mean is they want more money. Much more.
If you're doing business with a religious son-of-a-bitch,
Get it in writing.
His word isn't worth shit.
Not with the good lord telling him how to fuck you on the deal.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

CU-CU

Pensando melhor, talvez esta fosse uma melhor imagem para o que eu descrevi aqui

Os devoradores de cultura podem sair pela esquerda alta


António José Forte "Desobediência Civil"


...


se a preguiça encantadora dos homens
deve acabar a sua obra e a sua língua de fogo
unir os dias e as noites do desejo
então saudemos as grandes afirmações:
«a poesia deve ser feita por todos» e
«a poesia é feita contra todos»

os devoradores de cultura podem sair pela esquerda alta
fiquem os amantes obscuros e o único os raros
todos os nus
porque a língua portuguesa não é a minha pátria
a minha pátria não se escreve com as letras da palavra pátria

Vêde
sobre a coroa de silêncio do vulcão adormecido
uma ave a sua plumagem de cores trémulas
e as asas que escrevem letra a letra o nome definitivo do homem
e no entanto multidões de gnomos
cada qual com o seu estandarte
esperam à entrada dos cemitérios
para saudar o fogo-fátuo

eu passo de bicicleta à velocidade do amor
atravesso a terra de ninguém com um dia de chuva na cabeça
para oferecer aos revoltados


PS: Se tivesse mestres, o António José Forte seria um deles. Se calhar tenho mestres.

A Ideologia não está cá! Tá tá!

CU-CU

Nos dias que correm, no discurso político e económico em particular, há uma dialéctica interessante entre a invisibilidade e a visibilidade. É uma espécie de jogo do Cu-Cu, ou peek-a-boo, como lhe chamam os anglo-saxónicos. Por um lado, a ideologia parece ter saído da sua oficina subterrânea, posto uma gravata, passado um pente pelo cabelo e, em frente às câmaras, anunciado ao mundo que fará tudo às claras. Nada na mão, nada na manga. A mão invisível, tendo feito tantos estragos, teve que perder a vergonha. Por outro lado, como seria de esperar, vão-se fazendo pequenos passes de mágica para converter o Ideológico em natural e inevitável - que é afinal, a própria definição de Ideologia.
O processo tem muitas variações e idas e vindas. Os partidos do governo põem um ar pesaroso e enroscam-se bem na longa capa negra da necessidade, ao mesmo tempo que mostram o peito inchado, estampado com um programa de garridas e rijas cores liberais. É evidente que precisamos de desmontar o programa com a ferocidade, o desapego e a casmurrice com que um puto de cinco anos esfrangalha um brinquedo de que se fartou. Chamemos os bois pelos nomes, sim senhor. Mas reconheçamos, ao mesmo tempo, que não são os papões reaccionários de goelas medonhas que puxam a carroça da Ideologia. Nem mesmo, embora justificar isto exigisse uma análise mais demorada, o que por aí se vai dizendo com sorrisos cordiais, seriedade e MBAs, de crachá neoliberal na lapela. É antes a massa indistinta, gelatinosa e adocicada a que o seu discurso vai beber e simultaneamente alimentar. São as evidências para lá da ideologia, que permitem que o discurso neo-liberal se instale sem levantar muitas ondas – a ideia de meritocracia, por exemplo, e o mercado como coincidindo com o essencial na natureza humana. Mas mesmo estas ideias, largamente aceites, têm ecos de crueldade, pelo que vão sendo administradas com os paninhos quentes de justiça social. Pese embora a quase exclusiva autoridade do económico, a ponto de evacuar o político, julgo que o Social é o termo mais importante a analisar e desconstruir. Tanto mais porque neste terreno a divisão entre a esquerda e a direita (ou alguma esquerda e alguma direita) tem contorno mais turvos. 

Para voltar ao meu argumento inicial, os apelos que vamos ouvindo ao “senso comum” são óbvias armas de arremesso. E muitas vezes assumem-se até como tal. O “não há duas maneiras de ver a coisa”, “o que tem que ser tem muita força” e os “ponto final parágrafo” das respostas à crise estão mais assanhados ainda do que é costume. Mas está nos livros: isto funciona melhor de mansinho e com sorrisos de ça va de soi. Quando deixa de ser visto sequer como matéria de política. É ir espreitando pelo canto do olho. Ou talvez saltar para cima do palco, puxar as cortinas e partir a varinha em pedacinhos.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

como seria de esperar, foram-nos ao bolso…

Quando ouço falar de Cultura

saco do último "Ao pé da letra" do António Guerreiro:


Diga-se, sem reservas nem ironia: seria difícil encontrar um secretário de Estado da  Cultura tão perfeitamente identificado com o mundo cultural como Francisco José Viegas. O seu currículo é o do perfeito agente cultural: o indivíduo que tudo converte à linguagem da cultura e a amplifica nas suas saborosas astúcias. Escritor, o seu mundo é o da cultura literária; editor, a sua tarefa é a cultura editorial; diretor de uma revista literária, a cultura foi no entanto o seu verdadeiro sacerdócio; comentador de futebol, ele responde às exigências profanas da cultura futebolística; homem de gostos mundanos, sejam eles a gastronomia regional, os vinhos ou os charutos, ele inscreve-os na ordem dos requintados interesses culturais. Eis alguém que faz a síntese total com que sempre sonharam os espíritos iluminados pela chama da cultura. A sua vocação de agente cultural é um percurso de santidade: é uma capacidade pacificadora que consiste não apenas em conviver com tudo, mas em fazer com que tudo conviva com tudo, sem exclusões nem conflitos. Os ofícios sacerdotais da cultura, tal como FJV sempre os exerceu, são uma esponja que apaga rugosidades e anula asperezas: constroem o consenso, exaltam o conformismo, glorificam uma arte de viver que sabe aderir, em cada momento, à superfície lisa do tempo. A cultura — sabe muito bem este mestre dela, agora secretário de Estado — rege-se pelo princípio da conformidade. Com os seus mecanismos bem afinados, a cultura nada tem de irredutível, de resistente. É uma matéria plástica, pronta a ser moldada, convertida, traficada — tarefas que os mais dotados agentes culturais exercem com zelo. O poder da cultura é mimético e extensivo. Sem reservas nem ironia: quem agora acedeu a secretário de Estado da Cultura sabe, das argúcias culturais, tudo o que há a saber.’

É um texto de se tirar o chapéu. Certeiro no tom e subtil na escolha de palavras. Vou pôr de lado os muitos comentários que tenho sobre o tema. Por agora, queria apenas sublinhar a forma. É uma demonstração de como também a ironia se serve melhor fria, sem malabarismos. Não há ironia mais cáustica do que a do estilo enxuto e martelado de Kafka. Não há nada mais impiedoso. E eu diria que este texto do António Guerreiro é quase kafkiano. No modo como pede para ser tomado à letra, e como faz do sentido literal, “sem reservas nem ironia”, o meio de transporte da ironia mais amarga. For Brutus is an honourable man. Porque Francisco José Viegas é o perfeito agente cultural. No famoso discurso que Shakespeare põe na boca de Marco António, a mestria está na insistência cadenciada com que a honradez de Brutus é defendida, e o seu sentido esvaziado e revertido. No texto do António (sem querer comparar o valor literário da cada um - a sua habitual modéstia insistiria que eu o sublinhasse), o truque está não em desmentir a “perfeição”, mas em torná-la prova de acusação. E assim, sem desmanchar a cara séria, oferece-nos um muito melhor retrato dos perversos efeitos lubrificantes e anestéticos da Cultura do qualquer invectiva com muito bater de pés e espumegar da boca. Em vez de ranger estridentemente os dentes, o António deixa-nos ouvir o ranger das contradições sob o manto pacificador em que nos querem enrolar.

P.S. Fui buscar o texto (que está incompleto, julgo) aqui.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.

Continua daqui.

4. SERVIÇOS

Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze assoalhadas, e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça manhã cedo, já vindas do lota ajoujadas com o peixe para as bancadas. Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.

Maria Velho da Costa, "Revolução e Mulheres"

terça-feira, 28 de junho de 2011

«So piss off Satan and don't take me for dumber than I look»


Chegou-me por vias travessas o inquérito mais auto-complacente do momento: debitar nomes de escritores numa tarde amena de verão, coisa que eu, auto-proclamado ministro do entretenimento desta cloaca (uma espécie de Professor Griff cá do burgo, esta é para os mais batidos na história do hip-hop), não desdenharia em fazer. Contudo, o meu muito lá de casa nunca foram os livros, e os que ainda existem não passam de biombos de sala. Eu é mais bolos (parra, delícia folhada, doce da teixeira, etc.) e música (hall & oates, barry white, michel polnareff, por aí), por isso preferia não responder ao questionário. Desde logo, porque ele se assemelha a uma versão travestida das cartas-correntes da internet, ainda que disponha de um álibi literário para que os pseudo-aspirantes-assumidos-e-indubitáveis intelectuais se possam gabarolar. À semelhança das cartas-correntes, se o questionário não for repassado (um brasileirismo caro à literatura brasileira do século XIV e usado ocasionalmente por João do Rio e pelos maconheiros da zona norte do Rio de Janeiro) pode trazer sérios dissabores. Fiquem descansados, por mim ele morre já aqui. Parafraseando o senhor que se segue, «Tell them firmly: I am not paid to listen to this drivel». Por outras palavras, deixem-se de babosices e fiquem com os conselhos do William, it was really nothing:

Se mexes aí, corto-ta

Continua daqui


5. TRANSMISSÃO DE IDEOLOGIA

Coisas que elas dizem:

— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quiz.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há-de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso. — Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.

Maria Velho da Costa "Revolução e Mulheres"

É mas é uma comichão no corpo todo


“O repúdio do marasmo cultural que nos rodeia pressupõe a imersão no mesmo, a ponto de o sentirmos a formigar nas pontas dos dedos, mas simultaneamente a força, gerada por essa mesma imersão, necessária para o recusarmos.” T. W. Adorno
Se calhar o melhor é ir dar um mergulho à praia a ver se sai.

B Chachada

Para começar eu tentei gostar. O título - "Deus, Pátria e Família" -  sugeria uma iconoclastia anti-nacionalista, que a bem da verdade até existe na música, e esta entrevista mostrava um jornalista entusiasmado com o que seria um texto refundador. O jornalista depois de comparar a musica com o FMI do José Mário Branco resolve a comparação da seguinte forma:  

"A provocação de Fachada é uma outra coisa. É um gesto estético integrada num contexto específico, uma provocação para agitar, o retrato de família que B Fachada, que "não canta em português", fez deste país, ano 2011. Com as pontas soltas da ambiguidade que é uma das suas imagens de marca."

Depois de tantas loas, fiz o download da coisa e dediquei vinte penosos minutos a um artista - no sentido que se usa na minha terra - que já tinha descartado há muito tempo, ainda antes dele ser gemedor de baladas. O resumo da minha experiência é que a pose e o tom continuam a não disfarçar a voz de jumento afónico e nem o mérito deste verso ""sem a pátria para cantar, sobra o mundo para viver" salva mais este bocado de inépcia musical.





Como me lembro do tipo a perorar contra a Sophia aqui fica um pedaço de literatura com dedicatória:


"Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra"

segunda-feira, 27 de junho de 2011

I Won't Work

 Como oportunamente relembra a Raquel, os Wobblies foram fundados há 106 anos. Aqui fica um excerto de um texto em inglês, escrito originalmente em italiano por Sergio Bologna, que sugere um exercício comparativo entre a tradição das lutas operárias norte-americanas e a das suas congéneres europeias :
In 1905, at the peak of the struggle, while the Soviets were coming into being in Russia, in the USA the International Workers of the World (IWW) was formed; the most radical proletarian organisation ever in the USA, the only revolutionary class organisation before the rise of the Afro-American movement. Today there is much to be said and learned from the IWW. Although many of its militants were anarchists and anarcho-syndicalists who had migrated to the US from Eastern and Western Europe, the IWW cannot merely be written off as the American equivalent of French anarcho-syndicalism.
What was there in the IWW that is so extraordinarily modern? Although it was based on an old class nucleus, the Western Federation of Miners, the merit of the IWW was that it attempted to organise the American proletariat in terms of its intrinsic characteristics. It was primarily an immigrant proletariat, and therefore a mixture of ethnic groups which could only be organised in a certain way. Secondly, it was a mobile proletariat, a fact which very much militated against identification with any particular job or skill, and which also militated against workers developing ties to individual factories (even if only to take them over).
 The IWW made the notion of the social factory a concrete reality, and it built on the extraordinary level of communication and coordination possible within the struggles of a mobile workforce. The IWW succeeded in creating an absolutely original type of agitator: not the mole digging for decades within the single factory or proletarian neighbourhood, but the type of agitator who swims within the stream of proletarian struggles, who moves from one end to the other of the enormous American continent and who rides the seismic wave of the struggle, overcoming national boundaries and sailing the oceans before organising conventions to found sister organisations. The Wobblies' concern with transportation workers and longshoremen, their constant determination to strike at capital as an international market, their intuitive understanding of the mobile proletariat - employed today, unemployed tomorrow - as a virus of social insubordination, as the agent of the "social wildcat": all these things make the IWW a class organisation which anticipated present-day forms of struggle, and was completely independent of the tradition of the Second and the Third Internationals. The IWW is the direct link from Marx's First International to the post-communist era.

AAVV


Um sinal óbvio de que a época tola chegou é o facto de já ter sido desafiado por três vezes - e sempre por pessoal do 5 Dias - para responder a esta espécie de inquérito aos hábitos literários. O Miguel e outros unipoppers, aliás, também não escaparam ao desafio.

1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Assim de repente, nem por isso. Quer dizer, por vontade própria e "várias vezes" não. Mas há livros em que já peguei mais do que uma vez, geralmente com alguns anos pelo meio, por puro prazer, curiosidade e interesse. Sinceramente, e não sei se pela minha tenra idade (pausa para as gargalhadas), não estou bem a ver o interesse de ler um livro mais do que três vezes numa vida inteira. A não ser, naturalmente, para quem tem problemas de memória.
 É provável que os únicos livros que li e releria várias vezes sejam todos de BD. Li várias vezes o volume Toda a Mafalda, mas já não lhe pego há uns bons anos. Como o Youri, regresso várias vezes ao Astérix, mas cada vez menos. Descobri tardiamente o Corto Maltese, o que talvez explique a razão pela qual continue a encontrar-lhe bastante interesse. Mas sinceramente, e quanto mais penso nisso, não li nenhum destes livros ou colecções mais do que três vezes.
Tenho voltado várias vezes a Operários e capital, de Mário Tronti. Mas é um livro que se "estuda" mais do que se "lê". Tal como a Sociedade do Espectáculo, de Guy Debord.
Tudo isto  para regressar à formulação inicial. Assim de repente, nem por isso.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Sim, claro. O Anti-Édipo, de Deleuze e Guattari, é um óbvio. Não percebo nada daquilo. Suponho que isso  faça de mim um esquizofrénico iletrado, mas é o que há. 
A Montanha mágica, de Thomas Mann, é outro que tal. Costumo ficar pela página 123. É o momento em que o autor partilha com o leitor a ementa do almoço e eu perco automaticamente a paciência. Ao fim e ao cabo, o que me interessa o que comia Hans Castorp no sanatório de Davos? Para ilustrar o ponto, uma citação: 
O resto do Domingo não ofereceu nada de excepcional, a não ser as refeições que, embora não pudessem ser mais fartas do que de costume, se distinguiam pelo menos pelo requinte dos pratos. No menu do almoço figurava um chaud-froid de galinhas, guarnecido de caranguejos e meias cerejas; os gelados vieram acompanhados de bolos, em cestinhos feitos de fio de açúcar. E por fim, fatias de ananás fresco. À noite, depois de ter tomado a sua cerveja, Hans Castorp sentiu os membros ainda mais trémulos e pesados do que nos dias anteriores e às nove horas disse «Boa noite» ao primo, cobriu-se com o acolchoado de penas até ao queixo e adormeceu, como fulminado.

Cagões? You ain't seen nothin' yet!



Como isto por estas bandas está mais sossegado do que o Belmiro de Azevedo quando se lembra de ir consultar o saldo bancário, resolvi aceitar o convite do Renato e tentar responder ao tal questionário, apesar de algumas reticências. Até porque "curioso com o Miguel Cardoso" soa bem. Dificilmente será grande remédio para a pasmaceira, mas pode ser assim uma espécie de óleo de fígado de bacalhau. Mete passarinhos, ministros, vómito e a determinada altura aparece um ralador com intuitos maliciosos. Fora isso é chato. Um inocente exercício de caganice, como todas estas coisas. E também falo de alguns livros. É ir por aí abaixo e seguir as tabuletas.



1 – Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Já li e reli muita coisa muitas vezes, umas quantas por obrigação mas quase sempre com gosto. Sobretudo os modernistas. Por uma qualquer deformação de personalidade que a formação académica acentuou, não me apego muito a enredos e personagens: vou lá revisitar verbos, adjectivos e preposições, espreitar as engrenagens, e para voltar a passar devagarinho, palavra a palavra, por aquela descrição longuíssima de como o cuspo se adensa quando temos medo. O essencial é ir acampando em vários sítios e inventar engenhos para apanhar outros ângulos da paisagem. Mas, acima de tudo, ser terrorista e não respeitar a habitat natural das palavras. Pode-se observá-las de longe e fazer festinhas durante algum tempo, mas depois é construir barragens, espantá-las com estalidos e urros, arrancá-las à bruta, esquartejá-las e levá-las a dar uma volta até ao livro ao lado, enquanto se vai deixando para trás um trilho da porcaria que trouxemos de outras paragens.

Claro que o mais certo é daqui a uns anos fazê-lo sem dar por isso.

sábado, 25 de junho de 2011

Desculpem a maçada, mas uma alusão a Cassavetes não podia ficar sem Fugazi

Crush my calm you cassavetes
I was sitting tight so quiet quiet
In the dark till the lights came up my heart
Beating like a riot riot
Hollywood are you sitting on a sign
For someone to come on bust a genre
You poor city of shame
Ask me what you're needing
I'll sell you his name
cos he was the one to send it with truth
That's something from someone

Do fosco e do estremecido: exercícios de aproximação ao povo

Parte III do folhetim em farrapos "À farinha não se faz festinhas, que é uma porcaria. Ao povo também não" (Parte I aqui e Parte II aqui)


No que toca à aproximação ao povo, que foi onde ficámos, não há um consenso entre os estudiosos. Ainda assim, a maioria dos manuais disponíveis aconselha o uso de uma faca e um espelho. Idealmente, uma coisa em cada mão, para maior liberdade de movimentos.

Aqui, como adivinharão os sabidos leitores, começam logo os problemas.

É preciso muita ginástica.

Haverá mil maneiras de esfolar um gato, mas esfolá-lo em movimento é dos diabos. Ainda por cima os gatos são manhosos. Pode não parecer, mas isto tem tudo a ver com o povo.

É muito pouco provável, mas ponhamos a hipótese de até aqui não ter sido suficientemente claro. A este propósito, convém lembrar que  o objectivo da ciência não é o de tornar o obscuro claro, mas o de perceber as razões da obscuridade. A obscuridade é. Nós somos. Portanto, vamos lá espreitar. Uma coisa é certa, é preciso passar algum tempo em sítios muito escuros, e fazer tantas festinhas ao opaco que a pele na ponta dos dedos começa a descamar. Há muita gente que prefere usar luvas, mas pessoalmente acho que perde a piada. E é pela piada que cá estamos.

O meu conselho: vão habituando os olhos. Ao escuro, por um lado, e à ciência, por outro.

Do que se trata, no fundo (e isto talvez já tenha dado para perceber), é de anatomia. Diga-se que a anatomia, aparentemente a arte da transparência (de uma certa transparência), da exactidão (de uma certa exactidão), e da quietude (uma certa quietude), seria difícil sem um certo amor – inconfessado, claro - pelo fosco e pelo estremecido. Sem o estremecido não se percebia nada, sem o fosco – que pode até ser apenas aquela mancha minúscula num traço aparentemente limpíssimo – faz doer muito os olhos. É aliás fácil perceber isto se pensarem que uma visão demasiado clara, como um aparelho de raio-X demasiado poderoso, é das coisas mais inúteis que se pode ter, porque não se vê nada. O fosco é onde pára a transparência. Do que se trata, no fundo, é do fosco. E, claro, da sua relação com a transparência. Só esclarecendo esta questão é que podemos abordar o povo com o rigor que merece.

Deixemos portanto de parvoejar e vamos ao que interessa.

não sou muito dado a obituários, mas para que o falcão não seja só recordado como colombo, aqui vai...

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Isto está entregue à bicharada

Isto é, a mim. E "isto", já agora, é o blogue. Já viram ali, na coluna, da direita, um pouco abaixo dos nomes dos unipoppers, como "Poesia" se destaca nitidamente de todas as outras coisas, todas elas mais reais e mais sérias e mais barbudas? A democracia, por exemplo. Os transportes públicos, que é das coisas mais reais que existe, logo a seguir a uma forte dor de dentes. Como dizia um poeta qualquer, "assim não vamos lá". E depois acrescentava, como seria de esperar: La la la la la. 


P.S. Não ponho isto na etiqueta "Poesia", porque também já era fazer batota.


Nós: os que com aspirinas esfareladas

Antes de regressar a coisas sérias, uma antevisão de hoje à noite. Ou seja, um dos poemas do meu próximo livro: 


Nós: os que com aspirinas esfareladas
nos bolsos, umas quantas gravações
piratas de urros de amores antigos
em trampolins, com novelos de atrito
em torno de cantos suaves de gravilha
e eco e pedaços e lixa e fita-cola . Nós
dos papéis dispersos e das canções
interrompidas, do cansaço, das mãos
ao alto, das fotocópias encardidas,
das bocas feridas por palavras de línguas
impuras e frases tardias, tão suaves,
caducas. Dos inventários de usos vulgares,
futuros, escorregadios, aguçados por delírios
de extensos quintais muito misturados,
com arames e bichos, algum sentido prático
no que toca a pôr um pé em frente ao outro
e necessidades dispensáveis na presente
conjuntura, e canções desnecessárias e claro
fiéis aos poucos a trajectórias obscuras

Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos

 Continua daqui
6. PRODUÇÃO DE DESEJO

Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elam limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.

Maria Velho da Costa, "Revolução e Mulheres" 

Indignações




Programa:

The Rise of the Indignant: Spain, Greece, Europe


Apresentação por Costas Douzinas

Costas Lapavitsas (SOAS)
Carlos Frade (Salford University)
Illan Rua Wall (Oxford Brookes)
Stathis Kouvelakis (King’s College London)
Alex Colas (Birkbeck)
Costas Douzinas (Birkbeck)

Voo rasante: hoje à noite