sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Ou vem com botas cardadas, ou com pezinhos de lã...
A política além dos políticos
publicado no jornal i, esta quinta-feira
Há pouco menos de dez anos, após a manifestação global contra a Guerra do Iraque, o “New York Times” afirmava, no rescaldo desse dia de protesto mundial, que uma nova superpotência global acabara de nascer. A manifestação de 15 de Fevereiro de 2003, que se estendera da Austrália à Escandinávia, demonstrara que a globalização não era apenas o nome de um processo mercantil. Não sei se nos demos bem conta do facto, mas recuperámos por esses dias a hipótese de construir a partir de baixo um futuro movimento político global, sem a pompa e circunstância das cimeiras que reúnem organismos internacionais e governos nacionais e com a força e a criatividade de uma multidão que não olhe à nacionalidade com que os estados a classificam.
Se o internacionalismo foi uma das principais virtudes do ciclo de lutas que se afirmou entre finais dos anos 90 e aquele início de 2003 – um ciclo a que não foi igualmente estranho o levantamento zapatista de 1994 e que não deixou de se repercutir nos sucessos eleitorais da esquerda na América do Sul –, porém não foi a única virtude. Uma outra grande virtude foi a capacidade mostrada pelos movimentos de reporem a incerteza da história depois do anúncio do homem liberal como representando o último dos homens. Reagindo a um final de século indelevelmente marcado pelo elogio desenfreado das virtudes individualistas do liberalismo, e pela multiplicação de acusações de totalitarismo dirigidas a toda e qualquer política de transformação social, os novos movimentos que então emergiram romperam com o legado político do estatismo soviético sem que se encantassem com novos liberalismos. Sob o signo de fórmulas como “movimento dos movimentos”, exprimiu-se a possibilidade de emergência de um novo sujeito histórico colectivo, um corpo político que, sem necessidade de se subordinar a uma só palavra de ordem, instituía um tempo comum de acção contestatária.
Agora, em 2011, alguns meses passados sobre o início de uma onda de revoltas e protestos de natureza muito variada, que tem atravessado continentes, países e cidades – chegou a vez de Wall Street –, é de perguntar se não estamos perante um novo ciclo de lutas. Contra o protagonismo das elites políticas e económicas no quadro da resposta à crise financeira mundial, parece retomado o mais elementar princípio democrático: a política não é um monopólio dos políticos.
De Tunis a Wall Street passando por Madrid, muitos são os que nestes últimos meses não ficaram à espera que uma alternativa lhes fosse servida numa bandeja pelo partido X ou pelo líder Y. Estes muitos que por estes dias se inquietam não serão indiferentes ao rumo do mundo nos próximos anos. Às guerras de alecrim e manjerona, opondo quem defende que nos cortem a perna à altura do joelho e quem assegura que a justa medida da austeridade antes impõe que sejamos decepados dois centímetros mais abaixo, uma terceira margem acrescenta-se.
Em Portugal, os movimentos desta terceira margem, da geração à rasca de 12 de Março aos acampados do Rossio, passando pelos anarquistas que se manifestaram na Avenida da Liberdade contra a NATO, têm sido classificados como elementos perigosos, prontos a desferir um ataque ao coração da classe política, o que tem suscitado respostas contundentes da parte desta última, dizendo que os ataques de que tem sido alvo representam sobretudo uma ameaça à política propriamente dita. É um argumento que não colhe. Se é verdade que a crítica à classe política foi não raras vezes um cavalo de Tróia no interior do qual fez caminho a crítica à política, hoje é a classe política que, antes de tudo e todos, assegura já nada haver de político, cabendo apenas a um governo fazer cumprir um programa técnico supostamente livre de qualquer carga ideológica. Ou seja, a classe política matou a política. E pode bem dar-se o caso, neste contexto, de a crítica à classe política ser aquilo que de mais político se tem feito ouvir na sociedade actual. Na realidade, que gesto pode ser mais político que o de quebrar a divisão da espécie humana entre quem pertence e quem não pertence à classe política?
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Quarta, 21h no RDA69: Discussão sobre Occupy Wall Street e sobre o 15 de Outubro
Continuar a ler no Spectrum.
Debate 'A teoria está na moda?' | 13 Out. | Bartô | 22h

A teoria está na moda?
Bartô (bar do Chapitô) # quinta-feira, 13 de Outubro # 22h # entrada livre
(ver localização aqui)
organização: UNIPOP, revista imprópria e Zona Franca
com a participação de:
Ana Drago
Bruno Peixe Dias
Nuno Nabais
Com a queda do Muro de Berlim e a crescente hegemonia neoliberal, muitos julgaram que a figura do intelectual comprometido com a transformação radical do mundo era coisa do passado. O «fim da história» de Francis Fukuyama e o «choque de civilizações» de Samuel Huntington serviam não só como diagnóstico de uma época mas também como marcos visíveis de uma esfera pública que tomava como horizonte inultrapassável das sociedades humanas a economia de mercado e a democracia parlamentar.
Na última década, contudo, começaram a ganhar visibilidade uma série de teóricos, dificilmente enquadráveis numa tendência doutrinal única, mas que partilham, no entanto, a recusa do capitalismo como fim da história e uma exigência igualitária que não se satisfaz com os arranjos institucionais de hoje. Nomes como Antonio Negri, Zygmunt Bauman, Slavoj Žižek, Jacques Rancière, Alain Badiou, Judith Butler, Giorgio Agamben, Daniel Bensaïd, John Holloway ou Boaventura Sousa Santos, entre outros, começaram a ser lidos e debatidos para lá dos círculos académicos e de activismo radical, aos quais até então as suas ideias estiveram em parte circunscritas.
Longe de se tratar apenas de uma questão de presença mediática e de edição livreira, as teorias destes autores têm sido objecto de diversas apropriações políticas, em contexto de lutas concretas, nomeadamente em tomadas de posição e manifestos produzidos nos tempos mais recentes, em Madrid, Londres ou Atenas, mas também no quadro de processos reformistas e revolucionários como os que têm caracterizado a história recente de países como o Brasil ou a Bolívia. Estaremos perante a emergência de uma nova figura de intelectual? Tratar-se-á apenas de uma moda, ligada às exigências de um mercado editorial cada vez mais dependente da novidade? Que articulações é que se desenham entre estes teóricos, as suas ideias, e os novos movimentos sociais e políticos? Ao interrogar esta nova visibilidade do intelectual radical de esquerda, este debate procura abordar estas e outras questões.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Para uma história social do futebol
A discussão ficava cada vez mais acalorada. Os dois chegaram a propor uma solução mais radical, fora do estádio, no braço. Até que a polícia apaziguou os ânimos afastando o detrator de Alan para os primeiros degraus da social. Até que o Alan, sem precisar subir para acalmar o pai, acabou com a discussão marcando um gol. No mesmo instante, o antes crítico do atacante virou ‘fã’ e propôs um abraço ao pai do jogador – que aceitou na hora. A dupla de brigões ainda ouviu o coro da torcida pedindo - e sendo atendida - um beijo, na careca, entre eles.
domingo, 9 de outubro de 2011
O cemitério está cheio de pessoas insubstituíveis

Steve Jobs morreu. O mundo vai ficar igualzinho ao que era e a Apple só se for bastante estúpida é que vai à falência. Isto porque o fenómeno Apple acaba por ter pouco a ver com Steve Jobs. Em primeiro lugar, porque toda a inovação supostamente protagonizada pela Apple não é assim tão inovadora quanto isso. Deste ponto de vista, defender que a empresa conseguiu colocar a música nos nossos bolsos, um dos argumentos evocados, só poderá ser reflexo de má memória. Como se antes do ipod não tivesse existido o leitor do Mp3 e, muito antes deste, o discman e o walkman.
Tampouco se poderá encarar o high-tunes como uma obra revolucionária. A ideia de vender músicas e não álbuns completos não constitui mais do que o fruto de algum poder de observação sobre o que estava a acontecer na internet (por via dos downloads ilegais) ou do que dantes se podia fazer nos gravadores de K7s.
Tal poder de observação não poderá, no entanto, ser atribuído a Steve Jobs. Nas quatro páginas dedicadas à figura mítica do fundador da Apple, o Público referia um facto bastante curioso. O novo log da Apple, e todos nós sabemos a importância que o conglomerado concede à estética, não havia sido criado por Jobs. Nem sequer por um trabalhador da Apple. Mas sim por um consumidor.
O espírito de comunidade que caracteriza a relação de alguns consumidores com a Apple faz com que a sua condição vá para lá disso. Dispositivos como este, ou os milhares de fóruns on-line, permitem, mais do que a diminuição de custos relacionados com a assistência técnica, o usufruto de sugestões e ideias apresentadas pelos milhões de utilizadores. É a sua interacção, comunicação, e partilha que, no fundo, fazem a Apple.
Reunindo todas as qualidades de um empresário modelo, Steve Jobs e a sua exceleência são insignificantes quando comparados com o intelecto de milhões.
sábado, 8 de outubro de 2011
Manifesto 15Out Porto
Em adesão ao protesto internacional convocado pelos movimentos 'indignados' e 'democracia real ya', em Espanha, ocorrerá, no Porto, uma manifestação sob o tema 'a democracia sai à rua', no dia 15 de Outubro de 2011. As razões que nos levam para a rua são muitas e diferentes, de pessoa para pessoa, de país para país - não querendo fechar o protesto a outras exigências de liberdade e de democracia, mas para que se saiba porque saimos para a rua, tentámos, entre os que estão a ajudar na organização e na divulgação do 15 de outubro, encontrar as reivindicações que nos são comuns - entre nós e relativamente aos outros gritos das outras praças, nas ruas de todo o mundo:
Dos EUA a Bruxelas, da Grécia à Bolívia, da Espanha à Tunísia, a crise do capitalismo acentua-se. Os causadores da crise impõem as receitas para a sua superação: transferir fundos públicos para entidades financeiras privadas e, enquanto isso, fazer-nos pagar a factura através de planos de pretenso resgate. Na UE, os ataques dos mercados financeiros sobre as dívidas soberanas chantageiam governos cobardes e sequestram parlamentos, que adoptam medidas injustas, de costas voltadas para os seus povos. As instituições europeias, longe de tomar decisões políticas firmes frente aos ataques dos mercados financeiros, alinham com eles.
Desde o começo desta crise assistimos à tentativa de conversão de dívida privada em dívida pública, num exemplo de nacionalização dos prejuízos, após terem sido privatizados os lucros. Os altos juros impostos ao financiamento dos nossos países não derivam de nenhuma dúvida sobre a nossa solvência, mas sim das manobras especulativas que as grandes corporações financeiras, em conivência com as agências de rating, realizam para se enriquecerem. Os cortes económicos vêm acompanhados de restrições às liberdades democráticas - entre elas, as medidas de controlo sobre a livre circulação dos europeus na UE e a expulsão das populações migrantes. Apenas os capitais especulativos têm as fronteiras abertas. Estamos submetidos a uma mentira colectiva.
A dívida privada é bem maior que a dívida pública e a crise deve-se a um processo de desindustrialização e de políticas irresponsáveis dos sucessivos governos e não a um povo que "vive acima das suas possibilidades" – o povo, esse, vê diariamente os seus direitos e património agredidos. Pelo contrário, o sector privado financeiro - maior beneficiário da especulação - em vez de lhe aplicarem medidas de austeridade, vê o seu regime de excepção erigido. As políticas de ajuste estrutural que se estão a implementar não nos vão tirar da crise – vão aprofundá-la. Arrastam-nos a uma situação limite que implica resgates aos bancos credores, resgates esses que são na realidade sequestros da nossa liberdade e dos nossos direitos, das nossas economias familiares e do nosso património público e comum. É preciso indignarmo-nos e revoltarmo-nos ante semelhantes abusos de poder.
Em Portugal, foi imposto como única saída o memorando da troika – têm-nos dito que os cortes, a austeridade e os novos impostos à população são sacrifícios necessários para fazer o país sair da crise e para fazer diminuir a dívida. Estão a mentir! A cada dia tomam novas medidas, cortam ou congelam salários, o desemprego dispara, as pessoas emigram. E a dívida não pára de aumentar, porque os novos empréstimos destinam-se a pagar os enormes juros aos credores – o déficit dos países do sul europeu torna-se o lucro dos bancos dos países ricos do norte. Destroem a nossa economia para vender a terra e os bens públicos a preço de saldo.
Não são os salários e as pensões os responsáveis pelo crescer da dívida. Os responsáveis são as transferências de capital público para o sector financeiro, a especulação bolsista e as grandes corporações e empresas que não pagam impostos. Precisamos de incentivos à criação de emprego e da subida do salário mínimo (em Portugal o salário mínimo são 485€, e desde 2006 duplicou o número de trabalhadores que ganham apenas o salário mínimo) para sairmos do ciclo recessivo.
Por isso, nós dizemos:
- retirem o memorando. vão embora. não queremos o governo do FMI e da troika!
- nacionalização da banca – com os planos de resgate, o estado tem pago à banca para especular
- abram as contas da dívida – queremos saber para onde foi o dinheiro
- não ao pagamento da dívida ilegítima. esta dívida não é nossa – não devemos nada, não vendemos nada, não vamos pagar nada!
- queremos ver redistribuídas radicalmente as riquezas e a política fiscal mudada, para fazer pagar mais a quem mais tem: aos banqueiros, ao capital e aos que não pagam impostos.
- queremos o controlo popular democrático sobre a economia e a produção.
- não queremos a privatização da água, nem os aumentos nos preços dos transportes públicos, nem o aumento do IVA na electricidade e no gás.
- queremos trabalho com direitos, zero precários na função pública (em Portugal o maior contratador de precários é o estado), a fiscalização efectiva do cumprimento das leis laborais e o aumento do salário mínimo.
- queremos ver assegurados gratuitamente e com qualidade os direitos fundamentais: saúde, educação, justiça.
- queremos o fim dos ajustes directos na administração pública e transparência nos concursos para admissão de pessoal, bem como nas obras e aquisições do estado.
- queremos mais democracia:
- queremos a eleição directa de todos os representantes cargos públicos, políticos e económicos: dos responsáveis pelo Banco de Portugal ao Banco Central Europeu, da Comissão Europeia ao Procurador Geral da República
- queremos mais transparência no processo democrático: que os partidos apresentem a eleições, não somente os programas mas também as equipas governativas propostas à votação.
- queremos mandatos revogáveis nos cargos públicos - os representantes são eleitos para cumprirem um programa, pelo que queremos que seja criada uma forma democrática para revogação de mandato em caso de incumprimento do mesmo programa;
Partilha esta informação, participa na divulgação do protesto. (http://15out-porto.blogspot.com/ - material de divulgação, discussão aberta dos vários manifestos do protesto internacional e espaço para registares as tuas próprias propostas e reivindicações). Vem para a rua fazer ouvir a tua voz. Dia 15, às 15h, na Batalha, no Porto.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Qualquer coisa
Nem Alemães, nem Portugueses
Se nada fizermos, a crise das dívidas arrisca-se a ser o tempo de todos os nacionalismos, sentenciando definitivamente a morte da democracia.
Entre os países que ainda não estão no olho do furacão da crise financeira, aumentam os sinais que nos dão conta de um crescente sentimento de superioridade em relação aos governos e às populações dos países em crise. Nestes últimos, por sua vez, multiplicam-se os apelos – de teor não menos nacionalista – a um orgulho colectivo que deverá juntar, num só abraço, os patronato, a esquerda, a polícia, os empresários, os sindicatos, a direita e quem mais se julgar um bom e honrado cidadão.
Vejam bem a rapidez com que algumas situações evoluíram nos últimos tempos. Recordam-se quando, ainda há poucos meses, um jornal alemão sugeriu que as ilhas gregas deixassem de ser propriedade do Estado grego, no que seria uma forma de este amortizar os seus pecados financeiros? Na altura, por aquele ser um jornal tablóide, supusemos que o seu sensacionalismo não reflectiria o pensamento das elites alemãs e prontamente negámos ser esse um sinal de preocupação. Hoje, porém, é a própria Angela Merkel que aventa a hipótese de impor uma diminuição de soberania a Estados como o grego.
Para agravar ainda mais este cenário, temos a reacção das elites políticas dos países em crise às declarações de Merkel. A reacção tem sido uma de duas: há quem continue a não encontrar no facto qualquer razão para alarme, afirmando que Merkel se limitou a constatar uma realidade; e quem desate a falar do irreprimível expansionismo alemão e de como por cá – em Portugal, por exemplo – não falta quem se preste ao papel de colaboracionista, o que exigiria uma espécie de levantamento patriótico dos chamados portugueses. Ou seja, temos os que ignoram a doença e os que nos querem matar com a cura.
A confirmar-se este cenário de inflacionamento de todos os nacionalismos, não tardará que uma primeira vítima se apresente na morgue mais próxima. Não será provavelmente o banco X ou o banco Y, porque já todos percebemos que haverá sempre um estado qualquer pronto a salvar um banco qualquer em nome de um qualquer interesse nacional. Será a democracia.
O estado da democracia já não é, hoje por hoje, muito famoso. Triste e fragilizada, arrasta-se penosamente pelos cantos, manietada por uma sua concepção que ignora os valores da igualdade económica, tudo se resumindo a uma concepção de liberdade que tem o seu pilar fundamental no respeito pelo direito da livre iniciativa privada, isto é, o direito de uns poucos privarem os muitos do acesso a outros tantos bens. Mesmo a liberdade política encontra-se hoje resumida ao direito de escolhermos livremente os poucos que sobre nós mandarão, as mais das vezes a despeito de programas eleitorais acabados de imprimir. A política institucional está hoje apropriada por um sistema partidário em que escassos são os eleitos que recusam ser incluídos na categoria “classe política”, expressão que pressupõe uma profissionalização da política que é a negação de uma ideia de democracia segundo a qual um cidadão tanto poderá eleger uns como ser eleito por outros.
O estado da actual democracia não significa, porém, que nada possa piorar. Os efeitos anti-democráticos da voragem nacionalista que se avizinha não devem ser menosprezados. O crescente nacionalismo alemão arrisca-se a eliminar qualquer ilusão de autonomia – dar a nós próprios as nossas próprias leis – que ainda pudesse estar contida no princípio da soberania nacional. E os nacionalismos anti-alemães, por sua vez, ameaçam suspender por mais de seis meses a democracia enquanto instrumento de expressão do antagonismo político entre pessoas que vivem num mesmo país. A democracia enquanto negação do conflito e sublimação do consenso – alimentada tanto por uma concepção gélida e tecnocrática da política, como por uma exaltação romântica e calorosa do orgulho e resistência nacionais – pouco mais será do que uma forma menos musculada de dizer a palavra ditadura.
Num tempo em que até os partidos parlamentares mais à esquerda invocam a necessidade de uma unidade nacional, ideia que na Grécia ou em Espanha sectores anarquistas ou autonomistas – a famigerada esquerda radical – têm procurado contrariar, pouco falta para que a política em Portugal se resuma a um concurso televisivo para eleger o melhor administrador desta pequena e moribunda empresa. E a democracia, já se sabe, costuma ficar à porta das empresas.
Por mais que a ideia contrarie a intuição de alguns leitores, pode bem dar-se o caso de a esquerda radical ser a maior esperança para uma reinvenção da democracia.
publicado esta quinta-feira no jornal i
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
O mais luminoso farol do marxismo-leninismo volta a atacar
Historicamente, o anarquismo corresponde à infância do movimento operário contra a opressão burguesa e a exploração capitalista.[...]
Não será possível abordar a “táctica” black sem perceber a origem do processo. Nos anos sessenta do século passado foram nascendo os chamados “autonomistas” em vários países da Europa ocidental. Esses sim, tinham programa e política. Ensaiaram uma simbiose entre anarquismo e marxismo. Do anarquismo retiravam a aversão ao Estado, ao “governo compulsório”, à hierarquia e burocracia dos partidos de esquerda, especialmente dos partidos centralistas de tradição comunista. Do marxismo recuperaram a teoria económica, os princípios gerais da luta de classes: “horizontalizar” a luta de classes é uma consigna que pode hoje parecer estranha mas motivou muitos radicais, em particular grupos estudantis e intelectuais. Para essa luta de classes não havia outro programa senão o anticapitalismo radical, não havia fases, nem alianças.
A estratégia, sem táctica, era a acção directa e a agitação vermelha. Essa foi a tese antiga de Toni Negri, de várias organizações italianas, francesas, alemãs, holandesas, entre outras de menor expressão. [...]
A crítica que aqui se perfila sabe e condena desvios autoritários de partidos de base popular, e repudia o controleirismo sobre organizações sindicais, movimentos sociais, cooperativas, etc. Mas nada disso habilita quaisquer activistas a achar que o proletariado não precisa de partido político. Nesse aspecto, este debate já não é dirigido a uma manifestação infantil do movimento operário, mas apareceu como uma caricatura do passado. Esse “autonomismo” teve inclusivamente à ideia peregrina de que os movimentos sociais “autênticos” são apartidários e contra-partidários. Há uma classe que agradece, mas não são os trabalhadores.
domingo, 25 de setembro de 2011
P.ullshit
2. Um dos artigos em hiperligação remete para a vida de Hugo Araújo, um free-lancer que apenas tem projectos e não trabalha das 9 às 5. Não é coincidência o facto de Hugo trabalhar em web-design. Ninguém nega a existência de quem se safe, melhor, de quem se safe fazendo o que gosta. Fá-lo porque goza de um mercado de trabalho desequilibrado a seu favor, uma situação que, no entanto, se poderá facilmente inverter (não convém, deste ponto de vista, que muita gente leia o artigo). O que o artigo não menciona, propositadamente, é o número daqueles que se conseguem reconhecer nesta condição.
3. As qualidades evocadas pela peça, do ficar alojado em casa de amigos ao viajar muito, indicam o quão o mundo do trabalho passou a exigir mais do que qualificações. Não as dispensando (o que, por si só, dado o enclave classista em que a universidade se tornou, traduz o «universo» representado pelos «desenrascados»), os requisitos de contratação são igualmente determinados pelo domínio das competências: o arriscar, o vencer todas as dificuldades, o não ter casa fixa, o viajar num dia e viajar no outro, o estar em todo o lado a toda a hora, o conhecer toda a gente e mais alguma. Em suma, tudo aquilo que era subversivo nos anos 60.
4. Para os que não fizeram isto, azar. A ideia a ter é que mesmo sem dinheiro para as propinas da faculdade ou para viajar (mesmo em low cost) podiam-no tê-lo feito. Veja-se o Bill Gates. Ou o caso daquela pessoa que ninguém conhece, mas toda a gente ouviu falar. Se acabaram no call-center é porque assim o quiseram.
5. Porém, mesmo para aqueles que conseguiram «vencer», até que ponto é que uma vida de projectos, de objectivos a cumprir, do trabalho não das 9 às 5 mas das 22 às 6, é um mar de rosas? O rendimento imprevisível, os períodos sem trabalho, o pagamento por inteiro de todos os deveres de uma empresa (ou de uma marca, conforme exposto no artigo), o stress dos prazos a cumprir, todos eles são elementos expurgados da descrição do estilo de vida empreendedor.
6. No fundo, não interessam. Porque, no final do dia, podemos ouvir o último álbum que sacámos da net ou dar algum sentido à nossa vida ajudando ceguinhos a ler ou crianças famintas em África. No outro dia, o projecto continua.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
terça-feira, 20 de setembro de 2011
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Pode um Partido Socialista ter medo do Socialismo?
Aproxima-se o vigésimo aniversário da queda da URSS. Estávamos em 1991 e para muitos esse ano marcou o fim do século XX. Iniciava-se então uma nova era cujo signo seria o da liberdade.
Negada pelos regimes socialistas da Europa de Leste, a liberdade seria agora rainha e senhora. Sem muros nem a meias, o mundo seria livre e seria mundo, a sua superfície aplanada e alisada, disponível para nele circularem tudo e todos, de tal modo que as economias nacionais e regionais se desenvolveriam combinadamente, acumulando-se riqueza, dinheiro, progresso. Depois, mais tarde, num futuro mais ou menos longínquo, tudo acabaria por escorrer, do topo da pirâmide até cá abaixo, a caminho da felicidade e da abundância gerais. Em suma, a liberdade política traria a igualdade económica.
O fim da URSS trouxe mudanças importantes nas esquerdas partidárias europeias. Os partidos comunistas ressentiram-se imediatamente da débacle, alguns de modo fatal, outros conservando ainda hoje uma parte importante das suas forças, caso do PCP. Os partidos social-democratas, por sua vez, reclamaram a queda da URSS como uma vitória sua e beneficiaram eleitoralmente com a crise dos rivais comunistas, conforme testemunha o PS dos anos 90. Finalmente, mais à esquerda, abriu-se um espaço para correntes que, a partir de tradições radicais, e juntando-lhes comunistas e social-democratas desavindos com o seu passado, souberam trilhar um caminho de crítica da globalização capitalista sem guardar nostalgia pelos regimes socialistas do leste – foi o caso do BE.
Este novo cenário acalentou junto de algumas pessoas novas hipóteses de uma aliança entre os partidos de esquerda. Cessando a divisão do mundo entre o capitalismo ocidental e o socialismo de leste, cessava um obstáculo importante entre as esquerdas portuguesas. À nova situação geopolítica, juntava-se ainda a auto-crítica do PCP relativamente às experiências de leste, que o levou a revalorizar a ideia de liberdade política, diminuindo a sua distância face aos valores liberais dominantes. O próprio BE, que em parte alimentara uma ideia de liberdade política mais próxima de uma democracia de cariz basista, inspirada na crítica revolucionária da burocracia e do estatismo dos regimes de leste, rapidamente acabaria por redundar num partido parlamentar convencional.
Em suma, não tem sido o respeito pela liberdade política, nem as divergências – que as há – em relação ao que se entende por democracia política, que tem impedido aproximações entre as esquerdas partidárias. O principal motivo de afastamento reside no respeito pelo princípio da igualdade económica. Com a queda da URSS, e apesar da maior influência do liberalismo, PCP e BE continuaram, porventura de um modo mais tímido, a atribuir relevância significativa à ideia de igualdade económica. Já no campo do PS, essa ideia parece ter sido definitivamente secundarizada. Os socialistas portugueses participaram activamente do argumento segundo o qual todos os que lutam pela igualdade económica acabarão por negar a liberdade política. Propostas no sentido de uma menor liberdade comercial em nome de uma maior igualdade económica foram uma e outra vez indiciadas pelo PS como prova de que a esquerda anticapitalista é refém do mesmo tipo de pulsão totalitária que terá caracterizado os regimes socialistas do Leste.
Para alguns, o rumo liberal do PS é fruto de uma sua rendição aos encantos da terceira via. Para outros, o PS é por definição um partido do centro, que tanto emergiu contra a sua esquerda como contra a sua direita, sem a ligação histórica ao movimento operário que por exemplo caracterizou a social-democracia alemã. E, no entanto, olhando para o último congresso de Sócrates e para este primeiro de Seguro, tudo parece necessariamente mais elementar: na vida do PS sobrelevam os sinais de que em curso está um simples ajuste de contas entre novas, velhas e futuras lideranças. Infelizmente, a desastrosa troca de cadeiras entre Seguro e António Costa é mais do que um simples episódio tragicómico. E o problema que se mantém no meio da sala do congresso, como o elefante que ninguém quer ver, é se pode um partido socialista ter medo do socialismo?
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
terça-feira, 13 de setembro de 2011
exigir o impossível

Movimento cívico, democracia directa, desobediência civil, participação activa. Toda uma panóplia de conceitos que voltam à luz do dia, por via das indignações europeias ou das primaveras árabes.
No dia 4 de Maio de 1961, 6 anos depois da célebre tomada de posição de Rosa Parks, e alguns meses após a decisão do Supremo Tribunal de banir a segregação racial nos restaurantes e salas de espera dos terminais de autocarros em todo o país, sai de Washington o primeiro dos autocarros que ficaram conhecidos como Freedom Riders. Grupos de estudantes, brancos e pretos, nos mesmos autocarros que desafiavam o sul racista onde a lei de um tribunal pouco podia contra a herança da guerra da secessão. Não era sequer um acto de desobediência civil, no sentido em que a lei já estava alterada. Era apenas uma forma de dar visibilidade a uma injustiça clara, contínua e desumana. A oposição foi forte, autocarros incendiados, espancamentos brutais, e apesar da legalidade do acto em si, quase todos conheceram pela primeira vez a prisão.
É apenas um exemplo, como tantos outros poderiam ser enunciados, de quando a sociedade civil tentar ter uma voz activa na mudança. Dia 15 de Outubro há uma nova chamada para a rua, e a um mês dessa chamada queremos discutir essa influência que podemos ter, a melhor forma de a abordar, o posicionamento em relação ao activismo cívico e a nossa capacidade de mobilização. Convidamos assim todas as organizações que subscreveram o manifesto do 15 de Outubro, bem como todos os que pensem ou não participar nesta próxima tentativa de trazer a democracia para a rua, a ver o filme e a debater todas as questões sobre os movimentos cívicos que têm vindo à tona nestes últimos meses.
Será também projectado o filme Freedom Riders produzido pela cadeia de televisão pública americana PBS, sobre o movimentos dos direitos civis dos anos 60 nos Estados Unidos.
http://en.wikipedia.org/wiki/Freedom_riders
Filme mais jantar – 20h
Debate – 22h
Esquerda e direita na Universidade do Minho
Recebi esta chamada aos papéis (apenas em inglês, e não encontrei versão portuguesa), que poderá interessar.
"Left and Right: the Great Dichotomy Revisited," University of Minho, Braga, Portugal, March 23, 2012.
.. Ever since the French Revolution, the terms 'left' and 'right' have been used to frame and explain the political positioning of parties, voters and public policies. Although many thinkers claim that this dichotomy is exhausted and no longer provides an adequate understanding of contemporary political divisions, 'left' and 'right' remain central in political debate. But is the content of these terms really understood by all political actors? What does each individual or group recognize as 'left' and 'right'?
It is true that other classifications of political cleavages have been suggested, but none seems to have replaced the traditional division between left and right. Many people have thought that an opposition between materialist and post-materialist orientations or between libertarian and authoritarian values could cut across left and right. However, these new oppositions seem to have been absorbed, at least partly, by the old dichotomy. But is this really the case? Are there, in fact, no other sets of terms that might provide a clearer division of the political spectrum? The standard most commonly used to distinguish left from right has been the concern with equality. But is this social-economic criterion actually the best? Particularly at a time when very divisive “new politics” issues arise? And even if one accepts the validity of the traditional criterion, how can we describe and explain the approaches from left and right on equality issues?
Furthermore, there is more than one ideology within each side of the political spectrum – there is not only one left, there are several lefts, and the same is true about the right. If we accept that there is something that unifies these several lines within each side of the political divide, what, then, separates different views of the left or the right and allows us to distinguish between them? Which are the political values that are shared by the different ideologies on the left and on the right and which are those that keep them apart?
Contact BOTH Ana Rita Ferreira (arita_ferreira@yahoo.com) and João Cardoso Rosas (rosas@ilch.uminho.pt) by November 30, 2011.
sábado, 10 de setembro de 2011
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Em 2010, Portugal era o terceiro país da União Europeia com maior índice de precariedade laboral. Cerca de 23,2% dos trabalhadores por conta de outrem estavam ligados à sua entidade patronal por um contrato a termo ou por outro tipo de vínculo precário. Ao longo deste livro focam-se diversos casos que reflectem uma realidade que se impôs progressivamente nas mais diversas esferas laborais, da fábrica ao call center, do trabalho doméstico aos centros comerciais. Mais do que um mero reflexo de uma «batalha entre gerações», apresentamos aqui um conjunto de investigações que procuram interpretar o fenómeno da precariedade no quadro da evolução das relações de trabalho no nosso país.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
O capitão Falcão
Da mesma maneira, até os que ocupam posições destacadas neste panteão ignóbil hesitariam em assinar uma prosa tão abertamente nostálgica do tempo da outra senhora como a que deu à praia esta semana:O tal serviço universal de saúde tendencialmente gratuito, que tanto adoram, ao ponto de morrerem por esta singela linha na Constituição, está longe de ser a tal sétima maravilha. E se está bem cotado a nível mundial, o que é uma verdade, também deve essa qualidade ao sector privado. Sim, mais de 42% dos serviços prestados pelo SNS são, afinal, da responsabilidade do sector privado. É por isso que Paulo Macedo, um renegado herege para a esquerda demagógica e as suas almas sofridas, diz sempre que é ministro, não do SNS, mas sim do sistema de saúde. Vá lá. Atirem-se ao rio, gritem por um novo 25 de Abril na saúde, façam o que quiserem, mas habituem-se. A desbunda no SNS está a acabar.
Não há festa nem dança em que não apareçam os sindicatos e os sindicalistas a debitar opiniões, a meter o nariz onde não são chamados. Não há dia em que não apareça alguém a questionar as políticas de saúde, educação, segurança interna, defesa nacional, obras públicas e transportes.Há uns anos, muitos, Maldonado Gonelha disse que era preciso partir a espinha aos sindicatos. Na altura discutia-se a unicidade sindical e a criação de uma central alternativa à Intersindical comunista. Hoje, em 2011, com o país numa emergência nacional é urgente não só repetir a frase como pô-la em prática. Ainda por cima quando a irresponsabilidade sindical é patente em todos os domínios e os senhores teimam em não perceber que também ajudaram, e muito, a empurrar o país para a bancarrota.Deverá haver alguma lógica em tudo isto, uma vez que o plano inclinado em que o espaço público mergulhou em data incerta tudo permite e autoriza. Nenhuma destas ideias (?), argumentos (?) ou posições é propriamente nova ou original. É apenas o lugar de destaque que lhes foi atribuído e o metódico empenho em fazê-las passar por algo de razoável (o que exige nada menos do que a remoção ou drástica redução de tudo o que possa contrastar com elas e, por essa via, sugerir a sua inanidade) que surge como novidade.
Nunca faltaram fascistas com vontade de "partir a espinha aos sindicatos", nem ridículos fantoches que para isso apresentassem o previsível argumento patrioteiro (são sempre os sindicalistas "a empurrar o país para a bancarrota"). É o facto de uns e outros se lançarem a isso como fosse a mais simples e fácil das tarefas que verdadeiramente desconcerta, pois não só aquela espinha se apresenta muito mais sólida do que eles julgam como ainda, o que não é pouca coisa, se arriscam a encontrar pela frente algo muito mais ameaçador se por alguma imponderável razão o vierem a conseguir. Esquecem-se (e como poderia ser de outra forma?) que foram os conflitos sociais a dar forma aos sindicatos e não o contrário. Oxalá o venham a compreender rapidamente.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
a night out


Neste momento, na Baixa de Lisboa, decorre o evento Fashion Night Out. O objectivo, segundo me foi resumido, é levar os mais intimidados a entrar numa loja mais cara, abandonar repressões e traumas e mergulhar num mundo novo. Ou seja, tem a ver com o facto das lojas não estarem a conseguir vender tanto como precisam.
O argumento cosmopolita pareceu, no entanto, convencer as autoridades municipais. O cenário não é tão pornográfico como o da Praça Skoda, apropriada durante uns dias por uma empresa de automóveis. A maneira como as lojas conseguiram galgar as fronteiras das suas propriedades e invadir o espaço que é de todos não deixa de ser, por isso, bastante abjecta.
Entretanto, foi descoberta em São Paulo uma fábrica ilegal que produzia roupas para a Zara. Entre os trabalhadores, encontravam-se 16 bolivianos com cinco anos.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Sagacidade hereditária e modéstia postiça
Todos falam na política, muitos compõem livros dela, e no cabo nenhum a viu, nem sabe de que cor é. E atrevo-me a afirmar isto assim, porque, com eu ter poucos conhecimento dela, sei que é uma má peça, e que a estimam e aplaudem, como se fora boa; o que não fariam bons entendimentos, se a conheceram de pais e avós, tais, que quem lhos souber, mal poderá ter por bom o fruto que nasceu de tão más plantas. E para que não nos detenhamos em coisa trilhada, é de saber que no tempo em que Herodes matou os inocentes, deu um catarro tão grande no Diabo, que o fez vomitar peçonha; e desta se gerou um monstro, assim como nascem ratos ex materia putridi, ao qual chamaram os críticos Razão de Estado. E esta senhora saiu tão presumida, que tratou de casar, e seu pai a desposou com um mancebo robusto e de más manhas, que havia por nome Amor Próprio, filho bastardo da primeira desobediência. De ambos nasceu uma filha a que chamaram Dona Política. Dotaram-na de sagacidade hereditária e modéstia postiça. Criou-se nas cortes de grandes príncipes, embrulhou-os a todos.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
fósforo sem ponta por onde se lhe pegue
Passos Coelho afirmou existirem em Portugal, e cito, “aqueles que pensam que podem incendiar as ruas e ajudar a queimar Portugal. Pode haver quem se entusiasme com as redes sociais e com aquilo que vê lá fora, esperando trazer o tumulto para as ruas de Portugal”.
A resposta a dirigir a tal questão não é, num primeiro momento, uma resposta. Pois a primeira reacção a uma frase como esta só pode ser a surpresa, sentimento frequentemente expresso pela interrogação. Porquê? Aonde? Quem é que quer queimar Portugal?
E a segunda resposta que nos vem à cabeça, desta vez sem se limitar à mera inquirição, é… a indústria do papel. Queimar florestas para depois construir eucaliptos. Poderá ser igualmente um grupo económico dos grandes, daqueles que querem construir resorts e campos de golfe. Embora o sobreiro vá melhor com o bulldozer.
Passo Coelho poderia ter sido mais específico, apontando dedos a nomes e nomeando factos (de preferência, recentes). Se não o fez, o motivo é simples: não há nada nem ninguém para apontar. E Coelho sabe perfeitamente disso.
Como tal, apenas posso concluir que a sua intenção é, ou a intimidação, num contexto em que estão marcadas várias manifestações para os próximos meses, ou a preparação do terreno para algo bem pior. Tão grave que, à semelhança do método usado pelo primeiro-ministro, nem sequer me atrevo a desenvolver. Para ver se, assim, assusto alguém com todas estas frases sem sujeito e só com predicado.
Por chico-esperto, chico-esperto e meio.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Os Destruidores de Máquinas
Em Inglaterra celebra-se o bicentenário do general Ludd. Não teve cerimónias de Estado, mas nem por isso o espectro de Ludd deixa de pairar sobre as ilhas britânicas…
Haverá melhor maneira de evocar a memória de Ludd que fazer incidir as luzes sobre o actual levantamento dos amotinados londrinos? Antes de responder concentremo-nos nesse longínquo século xix, ao encontro do velho Ludd.
Foi há duzentos anos, num território que ficaria conhecido como o triângulo ludita, entre as cidades de Manchester, Leeds e Nottingham, não muito longe, portanto, da área de influência de Robin dos Bosques. Um número inusitado de desafios à ordem pública e violações da propriedade privada fez soar o alarme junto de autoridades públicas e privadas. Fogos postos e saques colectivos ou individuais, somados a outros tantos raides nocturnos dirigidos a propriedades agrícolas, e ainda vários actos de sabotagem industrial, em muitos casos contra as máquinas que começavam a tomar conta do chão da fábrica, marcavam o início de uma onda de revoltas e protestos que duraria de
Foram os anos do ludismo. Ainda hoje não é fácil saber ao certo quem eram os luditas. Entre eles encontravam-se seguramente artesãos, tecelões e fiadores. Reivindicavam frequentemente as suas acções assinando-as general Ludd ou simplesmente Ludd. Apelido imaginário, por certo, mas noticiado em jornais de parede, ao estilo agit-prop. A fama de Ludd beneficiou do prestígio avolumado pelas redes sociais tecidas pelos migrantes, que iam dando conta dos seus feitos, de localidade em localidade, numa época em que se intensificava a circulação de mão-de-obra. Insolente, Ludd vigiava o patrão menos escrupuloso da região, com carta ameaçadora na caixa de correio, mas também chegou a ser citado em petições parlamentares.
Em que contexto decorre a emergência do ludismo? A crise comercial em Inglaterra e o conflito com Napoleão são circunstâncias relevantes. A estes soma-se o impacto da nova maquinaria introduzida no quadro da revolução industrial; é razoável pensarmos que entre as motivações dos destruidores de máquinas estaria o desejo de conservar o posto de emprego. Nenhuma destas circunstâncias, contudo, parece ter comovido as autoridades. Se em alguns casos ainda encontramos sinais de uma resposta de tipo paternalista, foi repressão pura e dura que recaiu sobre os luditas, numa enorme operação militar e judicial. Esta criminalização deixou sequelas na memória e não é estranha a que os próprios historiadores, ao longo dos séculos xix e xx, tenham olhado para o ludismo com desprezo ou, na melhor das hipóteses, com a condescendência que lhes merecem os vencidos. A historiografia considerou os luditas mero sintoma da transição estrutural da época pré-industrial para o mundo da técnica. O retardado Ludd destruiria máquinas movido por um impulso irracional contra o progresso, diziam uns, enquanto outros referiam que os luditas se revoltariam por nítido desespero, como animais que atacam descontroladamente tudo e todos ao sentirem o estômago vazio.
Nas últimas décadas, porém, a situação modificou-se, em particular devido ao trabalho de uma geração de historiadores marxistas britânicos. Para o caso é particularmente relevante o artigo publicado em 1952 por Eric Hobsbawm e cujo título resgatei para dar mote a esta crónica. Pôs a hipótese de deixarmos de considerar homens e mulheres como os luditas enquanto sujeitos apolíticos. Não que os passemos a considerar actores políticos à semelhança dos "grandes homens" que comandam a ordem oficial - Ludd não é Churchill, Thatcher ou Obama - ou das "massas" em nome das quais falam os críticos oficiais da ordem - os luditas não são a classe de Lenine. Mas olhar de igual para os luditas obriga-nos a questionar permanentemente onde começa e acaba a política. E se entre os motins londrinos de 2011 e a vaga ludita iniciada em 1811 existem seguramente inúmeras diferenças, aproxima-os a circunstância de uns e outros permitirem que questionemos a crença de que só poucos - a "classe política" ou a "elite empresarial" - têm o direito histórico de agir sobre a cidade.
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