Em Novembro de 2010, em dia de greve geral, um grupo de pessoas
ocupou o número 94 da Rua de S. Lázaro, em Lisboa. Chamaram-lhe “casa do
grevista” e ofereceram um jantar à luz de velas. Foram desalojadas
pouco depois, a mando da C.M.L., que alegou ter para o prédio numerosos
planos, daqueles que não podiam esperar. Reposta a devoluta normalidade,
foi aquela parte do Desterro devolvida aos pombos.
Um ano e meio depois, o prédio continuava vazio e a autarquia, tão
diligente a reclamar os seus direitos de propriedade, não se deu sequer
ao trabalho de mudar a fechadura lá colocada pelos ocupantes. As janelas
ficaram abertas, para que a fúria dos elementos se encarregasse do
património municipal.
Um novo e alargado grupo de pessoas voltou ao lugar do crime no dia
25 de Abril para, num gesto de ressonâncias bíblicas, ressuscitar
Lázaro. Encheram o edifício de vida e organizaram concertos, debates,
exposições, oficinas e outras excentricidades, sem cobrar nada e com a
porta aberta a quem aparecesse. Nada que sensibilize a atarefada vereadora da habitação, que, através da Polícia Municipal, intimou os
ocupantes a deixar o edifício “limpo e devoluto” num prazo de dez dias.
Helena Roseta, que tem um arsenal de ideias de esquerda para a
cidade, está aberta ao diálogo, nomeadamente para dizer o que é que não
se pode fazer, escondendo-se atrás dos regulamentos e dos programas
camarários, cujos méritos são visíveis quando se consulta a lista dos
edifícios limpos e devolutos da C.M.L.
A autarquia ignorou durante anos a existência daquele prédio. Nada
se perderá se continuar a fazê-lo. Os lisboetas saberão dar-lhe uso.
Limpo e devoluto
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