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terça-feira, 15 de novembro de 2011

«Pele Negra Máscaras Brancas». Eusébio, luta de classes, ressabiamento e a Independência de Moçambique


Na era do marketing, Eusébio tem coleccionado entrevistas, deixando para a história um conjunto de declarações infelizes. A entrevista do passado Domingo ao Expresso não fugiu à regra. Não pelo que Eusébio disse em relação ao Sporting, que revelam ressabiamento e populismo mediático, mas por aquilo que ele disse sobre as relações raciais e a «luta de classes», e que os adeptos de uma agremiação de bairro lisboeta resolveram omitir.

Por exemplo, onde estava Eusébio na independência de Moçambique?
«o Benfica libertou-me para ir à minha vida em 1976. Fui tentar recuperar o que tinha perdido em África, porque nacionalizaram tudo o que eu tinha comprado: jogava à bola, ganhava dinheiro e comprava terrenos. Perdi tudo. E quem me tirou as coisas? Gajos que eu conhecia, que tinham andado comigo na escola». (p.48)

E sobre relações raciais, classes e posições sociais, o que tem a dizer?
«Eu às vezes digo isto do ‘preto’, mas não é uma ofensa. A verdade é que pensavam que a família aqui do preto era mais uma, que estavam a falar com um preto qualquer, quando estavam a falar com um engenheiro. Aliás, o meu irmão é bem mais claro do que eu: é branco como o meu falecido pai. O meu era branco, eu sou parecido com a minha mãe». (p.45,46)

Como diria o Neil Young, «One of these days, I'm gonna sit down and write a long letter to all the good friends I've known». Quer dizer, sobre Eusébio, e a mitologia do Benfica anti-fascista, muito mais havia para dizer, mas fica para a próxima...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

No tempo em que o Peyroteo ripava na rapaqueca era bumba prá baliza!


E diga-se desde já do Peyroteo que, capricho à parte, foi o maior, maiorzíssimo que o Eusébio, esse aparecido providencialmente na era do marketing. Eis a comparação segue a história (...).
Pois toma, foi mesmo ó quê. A Académica a marcar golos, o Peyroteo a empatar de cada vez que o seu (de verde-escuro) guarda-meta Azevedo chupava mais um. Assim: avança a Académica, enleia o adversário, troca a chincha de um para outro jogador, aproxima-se da baliza, pode marcar, pooode marcar maaarqué gooolo! E logo a seguir: avança o Peyroteo, faz uma finta, aplica uma gambeta, dribla um, dribla dois, volta atrás e dribla-os novamente, arranca, marca, não marca, ainda não marcou, agòraèqué  agòraèqué ó minhamãe e bumba, foi. Ajudem-me quantos se lembram – FORAM CINCO, NAO FORAM? Pasmai, ó miúdos de hoje, e repasmai, e contrapasmai se quiserdes, que aquilo parecia um pasma de guarda a um galinheiro. Do lado de cá onze em preto viúvo, do lado de lá o Peyroteo e, a ajudar o Peyroteo, dez manos jeitosos, mas nem por isso (os manos que me desculpem – isto na memória embrulha-se a cada passo e acontece sermos menos verdadeiros) (...)
Vidas de craque. Pois na segunda parte a máquina carburou ainda melhor, aplicou desconhecidas novas gambetas na malta, fingiu que corria, driblava, não driblava, e sempre bumba, bumba, bumba prà baliza da Académica, cujo nº1 (neste século recuado não havia números) se punha a rezar a um deus desconhecido, como o protagonista do John Steinbeck. Cinco a cinco! Há lá resultados destes no futebolinha coisa pouca de 1972?
 
Fernando Assis Pacheco, «Memórias de um craque»

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Horizontes da memória. Ser benfiquista é ter na alma a chama imensa do colonialismo português (Iª parte)

Temos a braços uma Greve Geral para a qual todos os esforço de «unidade, unidade, unidade do trabalho contra o capital» são poucos. Mas não podemos declinar uma viagem a uma ideia de passado «glorioso», ideologicamente incólume, que os mitólogos de uma agremiação lisboeta se esforçam por reproduzir. Na tese VII «sobre o conceito da história», Walter Benjamin refere que o materialismo histórico conseguiu acabar de vez com o método da empatia, cujas origens «encontram-se na indolência do coração, a acedia, incapaz de se apoderar da autêntica imagem histórica que subitamente se ilumina». A empatia tolda juízo, a crítica historiográfica e varre para debaixo do tapete os acontecimentos do passado que não se adequam à imagem idílica que nele gostaríamos de ver projectada.

Segue a história de um acontecimento do passado, um autêntico documento de barbárie para quem escova a história a contrapelo, mas que os prosélitos do benfiquismo resolveram omitir. No início da década de 1960, o Benfica era o único clube português que dispunha de duas publicações oficiais: O Benfica Ilustrado (mensal) e jornal O Benfica (semanário). Estas duas publicações faziam eco das grandes epopeias do clube encarnado, glorificando os seus feitos e exacerbando as suas vitórias. Mas não só. Quando o fascismo começou a ruir, os órgãos oficiais do clube juntaram-se a coro de indignação nacional, lamentando a perda de Goa, Damão e Diu em 1961, as jóias da coroa do imperialismo português. A indignação patriótica e de direita chegou à primeira página do jornal O Benfica, que num editorial intitulado «Viva Portugal!» dizia:

«Não! Não há qualquer forma de sentimento, não há qualquer, maneira de pensar que resista ao amor da Pátria, que deixe de vibrar quando a terra portuguesa, nada e criada pelo sangue dos nossos maiores, é assaltada pela horda assina e cruel que mata, que rouba. (...) Agora só há Portugal! Agora só pode haver um coração, só pode existir um sangue do mesmo tipo, só pode aflorar uma palavra aos nossos lábios, aquela que nossos Pais nos ensinaram a amar desde que nascemos e que depois de crescidos compreendemos ser a única que, acima de tudo, devíamos amar e conservar – PORTUGAL! (...) Portugal, afrontado, sangra de dor! Portugal, bem ferido, chora os que perderam a vida no solo que durante centenas de anos foi cultivado pelas suas gentes e que, de um dia para o outro, se vê arrasado, destruídos pelos bárbaros da nova vaga, por aqueles mesmo bárbaros que no seu país não conseguem matar a fome aos muito milhares de miseráveis que por lá pululam num espectáculo degradante, indigno, impróprio de gente que se julga civilizada» (O Benfica, 21 de Dezembro 1961)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Dores de cabeça a Salazar

Ao contrário do que alguns querem fazer crer, nunca o Benfica foi o clube do regime deposto em 25 de Abril de 1974. Antes pelo contrário.
No Benfica já havia democracia quando ela chegou ao País (eram célebres as assembleias gerais e as eleições no Clube) e nele chegaram a lugares de destaque conhecidas figuras da oposição.
Além disso, o Benfica inaugurou campos a 5 de Outubro e não a 28 de Maio, como outros o fizeram!...
O Benfica foi mesmo o clube que menos ligações teve com a ditadura e que mais dores de cabeça provocou a Salazar. Embora, nos últimos anos, por via das suas vitórias europeias e de ter Eusébio nas suas fileiras, tivesse dado bastante jeito ao regime, a propósito da sua política ultramarina.
O Benfica nunca se serviu do regime (antes pelo contrário); o Benfica foi aproveitado pelo regime, depois de por ele prejudicado ao longo de muitos anos.
Bastará recordar o facto de, num país onde vigorava uma ditadura e onde as eleições não eram livres, o Benfica ser um verdadeiro oásis, com as suas assembleias gerais bem concorridas e democráticas e com as eleições para escolha dos seus dirigentes, sempre muito participadas.
Ainda antes de haver democracia no País já ela era praticada no Benfica!
As raízes populares do Benfica, que têm a ver com a sua fundação (bem diferente da do Sporting, por exemplo), nunca deixaram de se fazer sentir. E, ao contrário do que se verifica nos outros clubes grandes (Sporting, FC Porto, até Belenenses), os sócios que ascenderam à presidência do clube são de vários extractos sociais, desde um operário (Manuel da Conceição Afonso) a um aristocrata (Duarte Borges Coutinho), um e outro grandes presidentes que passaram pelo Clube.
Mais que uma vez teve o Benfica declarados oposicionistas ao antigo Regime como presidentes, casos mais flagrantes do referido Manuel da Conceição Afonso, de Félix Bermudes e do capitão Júlio Ribeiro da Costa, que não se quis recandidatar, uma vez que reconheceu que a sua presença à frente do Clube estava a fazer com que este fosse seriamente prejudicado pelas entidades oficiais.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cagões? You ain't seen nothin' yet!



Como isto por estas bandas está mais sossegado do que o Belmiro de Azevedo quando se lembra de ir consultar o saldo bancário, resolvi aceitar o convite do Renato e tentar responder ao tal questionário, apesar de algumas reticências. Até porque "curioso com o Miguel Cardoso" soa bem. Dificilmente será grande remédio para a pasmaceira, mas pode ser assim uma espécie de óleo de fígado de bacalhau. Mete passarinhos, ministros, vómito e a determinada altura aparece um ralador com intuitos maliciosos. Fora isso é chato. Um inocente exercício de caganice, como todas estas coisas. E também falo de alguns livros. É ir por aí abaixo e seguir as tabuletas.



1 – Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Já li e reli muita coisa muitas vezes, umas quantas por obrigação mas quase sempre com gosto. Sobretudo os modernistas. Por uma qualquer deformação de personalidade que a formação académica acentuou, não me apego muito a enredos e personagens: vou lá revisitar verbos, adjectivos e preposições, espreitar as engrenagens, e para voltar a passar devagarinho, palavra a palavra, por aquela descrição longuíssima de como o cuspo se adensa quando temos medo. O essencial é ir acampando em vários sítios e inventar engenhos para apanhar outros ângulos da paisagem. Mas, acima de tudo, ser terrorista e não respeitar a habitat natural das palavras. Pode-se observá-las de longe e fazer festinhas durante algum tempo, mas depois é construir barragens, espantá-las com estalidos e urros, arrancá-las à bruta, esquartejá-las e levá-las a dar uma volta até ao livro ao lado, enquanto se vai deixando para trás um trilho da porcaria que trouxemos de outras paragens.

Claro que o mais certo é daqui a uns anos fazê-lo sem dar por isso.