quinta-feira, 25 de outubro de 2012

De que falamos quando falamos de alternativa?


(o meu artigo no i de hoje)

É urgente mudar os conteúdos das políticas que nos governam? Sim, é urgente, e no entanto não basta simplesmente mudar os conteúdos.

O artigo que escrevi há duas semanas dirigia críticas à ideia de alternativa que me parece ter sido acalentada em iniciativas como o “Congresso das Alternativas”. Em troca recebi algumas respostas que desde já agradeço.
A questão que pretendi colocar a debate naquele artigo foi: de que falamos quando falamos de alternativas? Julgo importante fazer esta pergunta porque, a meu ver, a actual situação política não exige simplesmente propostas políticas com conteúdos diferentes, mas também outra forma de organização do trabalho político. Esta exigência interpela a chamada esquerda do “arco da governação”, isto é, o PS, que por alternativa tem entendido, sobretudo, alternância governativa, mas também julgo interpelar a restante esquerda que navega na órbita parlamentar. Não esqueço que comunistas e bloquistas sempre exigiram uma mudança de políticas e não simplesmente uma alteração dos políticos, mas, se ontem teria eventualmente bastado o muito que seria substituir políticas económicas liberais por políticas económicas de pendor social-democrata, creio que hoje não só não chegará mudar de políticos como também não bastará mudar de políticas. É também preciso, sim, mudar a política.
Os trabalhos que esta mudança implica não são simples e ninguém garante um final feliz. São várias as hipóteses que estão na ordem do dia.
A primeira é a de uma mudança de orientação tecnocrática. Do ponto de vista tecnocrático, o confronto político entre os partidos no quadro parlamentar é uma espécie de fábrica de mistificações ideológicas que se limita a atrapalhar a eficiência governativa. Haveria, então, que remover o parlamento (ou até mesmo as eleições) para nos aproximarmos da verdade das coisas.
A segunda hipótese é a hipótese populista. Mais do que na ideia da política como um lugar contaminado por ideologias cuja abstracção só atrapalhará o melhor governo do país, esta hipótese assenta na suposição de que a política é hoje um lugar dominado por palavras despidas de emoções, que através de artifícios retóricos acaba por nada dizer ao coração de um povo que por este efeito se vê excluído do sistema.
A terceira hipótese é a que me parece ser alimentada por iniciativas como o “Congresso das Alternativas”. Esta hipótese dirige a sua crítica não ao sistema demo-parlamentar por inteiro mas ao monopólio que dele fariam os partidos políticos. Em alternativa a este monopólio, haveria que procurar um sistema de representação em que, por exemplo, as personalidades teriam maior margem de manobra. É o discurso alimentado por vários independentes de esquerda, de ex-dirigentes partidários a jovens intelectuais cujo brilho é indisputável.
Por que não me agrada esta terceira hipótese? Porque a hipótese que me anima é a da possibilidade de uma experiência democrática além do sistema representativo vigente. Neste sentido, o meu problema com o BE e o PCP não reside no facto de eles monopolizarem a representação parlamentar do famigerado povo da esquerda ou de serem mais ou menos eficazes na sua performance político-institucional. O meu problema reside no facto de a vida político-institucional – e o circuito mediático e a lógica estatal que ela envolve – tender a monopolizar a política desses partidos. Acresce, ainda, que BE e PCP, com os infinitos defeitos que têm, guardam uma vantagem em relação a um "Congresso das Alternativas" que, podendo ter sido uma experiência de construção política colectiva, pouco fez para evitar que se apresentasse em público como uma constelação de protagonismos individuais. Ora, ao culto da liberdade individual e do brilhantismo intelectual dos independentes de esquerda continuarei a preferir o colectivismo dos militantes partidários, com todos os problemas que o colectivismo também suscite.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Quando me dizes "Vem", já eu parti (1943-2012)


Documentário Manuel António Pina from Terra Líquida Filmes on Vimeo.

De algum modo, Maio de 68 aconteceu dentro do nos­so coração. Era aí que, também nós, nos barricávamos então con­tra a pequenez do nosso tempo e do nosso lugar. E, sim, também nós (conselhistas, anarquistas, guevaristas, trotskistas, enragés de todas as espécies), dentro do coração nos sentíamos, mansamente embora, la pègre e la chienlit.  [...]
Amávamos sem regras, escrevíamos poemas, cantávamos can­ções, saíamos à noite para pintar afrontas nas paredes («Abaixo a Guerra Colonial», ou, mudando duas letras, transformando o «Droga = loucura, morte» governamental em «Tropa = loucura, morte») ou lançávamo-nos em correria pelas ruas da Baixa ape­drejando as montras de bancos e dispersando antes da chegada da Polícia. Para nós eram tão risíveis os fatos escuros dos minis­tros como a sisudez operária do PC e dos maoistas.
Manuel António Pina, via Rui Bebiano

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Uma aquisição para sempre


 Há uns anos João Galamba recomendava-nos a leitura de uma obra de Marx que só ele conhecia, O idealismo alemão. É agora a vez de Pedro Picoito se colocar em bicos de pés para recomendar a terceiros a leitura do 18 de Brumário de Luís Napoleão. Seria trágico, se não fosse simplesmente ridículo, ver alguém a exibir na mesma frase o seu pedantismo e a sua boçalidade, sem nunca correr o risco de ser confrontado com uma e outra coisa.
São estas pessoas que a esquerda moderna e a direita assim-assim nos oferece como intelectuais orgânicos, gente que gosta de se ler a si própria a citar os clássicos, a dar conselhos e lições, a emitir sentenças. E para quê? Para a profundidade do seu pensamento, para o rigor com que observam a realidade, para o interesse do que têm a dizer acerca do que quer que seja, citar as páginas do Correio da Manhã ou da Men's Health chegaria perfeitamente. Mas nada disso lhes parece suficiente e, uma vez que frequentam sobretudo salões de chá e copos de água onde este tipo de parvoíces passa por erudição e profundidade, eis que se abalançam a comentar a história do nosso tempo como se ela já tivesse acabado. 
Que não se pense, porém, ser tudo isto desprovido de significado. Citação por citação, eis uma que lhes encaixa como uma luva:
O domínio da história era o memorável, a totalidade dos acontecimentos cujas consequências se manifestariam durante muito tempo. Era inseparavelmente o conhecimento que deveria durar e ajudaria a compreender, pelo menos parcialmente, aquilo que aconteceria de novo: «uma aquisição para sempre», diz Tucídides. Por isso, a história era a medida duma novidade verdadeira; e quem vende a novidade tem todo o interesse em fazer desaparecer o meio de a medir. [...] Acreditava-se saber que a história tinha aparecido, na Grécia, com a democracia. Pode verificar-se que ela desaparece do mundo com ela. É preciso porém acrescentar a esta lista de triunfos do poder, um resultado para ele negativo: um Estado, em cuja gestão se instala duravelmente um grande défice de conhecimentos históricos, já não pode ser conduzido estrategicamente.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Porque narciso acha feio o que não é espelho

o meu artigo no i de hoje


Junto a muitos outros e outras, temos vindo a apelar a que o descontentamento individual face à actual situação política dê lugar ao protesto colectivo. No último mês e meio, por obra e graça de milhares de factores, o protesto tomou conta das cidades. Multidão atrás de multidão, manifestação atrás de manifestação, as pessoas saíram à rua, protestaram contra a actual situação e a onda ameaça avolumar-se. Neste cenário, há quem continue a dizer que protestar não chega e que é preciso, sim, construir alternativas. É um erro, porque ou a alternativa nasce do interior do protesto ou não terá força para vencer.
A ideia de que a alternativa é uma fórmula que, trabalhada por um comité de dirigentes ou por uma elite de peritos, conferirá ao protesto a clarividência que dele estaria ausente, ideia que animou todas as vanguardas, falhou redondamente uma e outra vez. E falhou por duas razões. Em primeiro lugar, porque quem protesta também é clarividente e não gosta de se ver simplesmente na pele de um cavalo selvagem à espera de ser domado por um qualquer cavaleiro. Em segundo lugar, falhou porque os cavaleiros que acham que vêm de fora, por mais lúcidos e decididos que se julguem, nem sempre são tão clarividentes quanto o seu espelho lhes faz crer.
Precisamos, pois, de abandonar qualquer espécie de concepção instrumental do descontentamento popular e do protesto colectivo. Não se trata aqui de defender, entenda-se, que todo o protesto tem razão de ser a partir do momento em que é, mas antes de exigir que olhemos para os gestos e as palavras que fazem os protestos com o mesmo cuidados que devotamos à análise dos gestos e palavras dos dirigentes que se situam do lado esquerdo ou direito do hemiciclo parlamentar e dos peritos que os assessoram.
Como modificar o nosso olhar? Não é fácil, mas, de novo, a crítica é a única forma de ir apurando a alternativa. Critique-se a forma de escrever de um dos mais acutilantes cronistas dos nossos média, Daniel Oliveira, exemplo tanto mais útil porque grande parte das posições do cronista em relação ao actual governo não merecem a nossa discordância. Nos seus textos, Daniel tem-nos falado sobre o “desespero popular”, sobre um “povo furioso” ou ainda, entre outros exemplos possíveis, acerca da “raiva em que as pessoas estão”. Tudo isto parece incontestável, mas haveria que perguntar duas coisas: em primeiro lugar, se este tipo de representação do descontentamento não acaba por fazer desse povo de que nos fala uma entidade tanto mais potente quanto mais embrutecida, isto é, um corpo politicamente inimputável, sofrível mas incapaz de pôr cobro, por si só, ao seu sofrimento; e, segunda pergunta, se não é justamente esta suposição de um tal estado de descontrolo por parte da população que leva o nosso cronista, juntamente com outras boas almas da nossa esquerda cuja generosidade e voluntarismo não discutimos por um momento que seja, a entender que protestar não basta e que é preciso oferecer uma alternativa aos desesperados.
É também nas formas de elogio ao povo que protesta que se encontra, por vezes, a atribuição de uma deficiência a esse mesmo povo, deficiência que só poderia ser resolvida com o auxílio de seres dotados de uma razão política superior. Coisa importante para que este esquema funcione é que dirigentes e peritos, partidos e individualidades, denotem grande confiança nas suas próprias competências racionais. Poderão os leitores mais humildes julgar que tamanho nível de confiança é simplesmente inatingível, mas, na verdade, basta uma boa dose de ignorância quanto ao facto de a nossa própria racionalidade política ser também ela moldada por emoções e feitios que só em parte devem à razão. É tamanha ignorância, aliás, que tem permitido que algumas figuras à esquerda estejam sempre prontas a criticar os dirigentes dos partidos de esquerda em nome da unidade dos partidos da esquerda, supondo que estão a falar em nome do interesse geral das esquerdas e não já do seu legítimo mas próprio interesse.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Que se vayan todos?


( o meu artigo no i de hoje)
Na manifestação que terça-feira, em Madrid, cercou o congresso, uma das tarjas levadas pela multidão dizia simplesmente “Que se vayan todos”. A fórmula tem origem, creio, nos protestos populares da Argentina deste início de século. E diz alguma coisa sobre a dificuldade de legitimação que, hoje, enfrenta todo e qualquer líder político.
A este compete calcular, é sabido, o tempo para entrar e sair de cena. Deverá proteger-se em terra quando a tempestade vai forte, deverá atirar-se ao mar quando a corrente joga a seu favor. As águas, porém, andam de tal modo agitadas por estes dias que não é fácil apurar com exactidão o estado do mar.
Comecemos pelo actual governo. Escreveu-se já que o presente estado de decomposição governativa tem levado os ratos a posicionar-se habilmente de modo a abandonarem o navio num futuro próximo. Todavia, o lance não tem saído com a facilidade do costume. Mesmo Paulo Portas, que sempre procurou alcançar aquele “óptimo de irresponsabilidade” que lhe permitiu garantir que as suas deserções seriam suficientemente discretas para não passarem por oportunismo e suficientemente vistosas para sinalizarem uma ruptura efectiva que abrisse espaço a um futuro retorno, encontra-se hoje a espernear no meio do pântano.
Esta situação de crise no governo poderia facilitar a vida à oposição, mas também não é aí que estamos. Veja-se António José Seguro. Líder de um partido que escolheu estar do lado da troika, ameaçou agora com uma moção de censura que, afinal, depois retirou; se já tínhamos o clássico líder da oposição que, chegado ao governo, não cumpre as suas promessas, temos agora o líder da oposição que não as cumpre antes mesmo de chegar ao governo.
Estas dificuldades poderiam, por sua vez ainda, abrir o caminho a um outro líder da oposição, caso de António Costa. Sucede, porém, que durante largos meses, no programa televisivo em que semanalmente participa, Costa se viu, não raro, ultrapassado à esquerda por José Pacheco Pereira e não será com facilidade, estimo bem, que agora conseguirá finalmente atirar-se ao ar e aí ser catado por ventos que soprem a seu favor. Se é para irmos nessa onda, neste momento talvez seja mesmo preferível apostarmos em Pacheco Pereira…
A esquerda à esquerda do PS talvez retire algum proveito de toda esta situação. É justo que assim seja e podem contar com o meu voto. Mas não nos iludamos. Mesmo as lideranças que sempre contestaram a troika acusam dificuldades de navegação. No caso do PCP, é verdade que poderá acabar por registar uma subida de votos porque, nestes tempos que correm, sadia e ironicamente, a sua falta de jeito para o oportunismo eleitoral (que alguns insistem em tomar como testemunho de ortodoxia…) tal permitirá. Porém, de um ponto de vista sociológico, o partido parece cada vez menos capaz de sair do quadrado em que, nas manifestações, os seus próprios serviços de ordem tendem a encerrar os próprios militantes comunistas.
No caso do BE, o problema parece ser o inverso. A facilidade com que procura colar-se a todo e qualquer tipo de protesto, sobretudo no momento em que uma câmara de TV se aproxima da cena, poderá facilmente virar-se contra si. Que o diga Catarina Martins. No episódio televisivo em que, falando em nome dos manifestantes, se viu interrompida por dois ou três cidadãos que a maldisseram, a deputada sentiu bem na pele o novo “ar do tempo”, que é o da crise acelerada das lideranças políticas.
Sobre esta crise, e como este episódio com a provável futura líder do BE denota, abre-se uma janela de oportunidade que deixa à vista, pelo menos, dois caminhos. O primeiro guarda um sentido antidemocrático e aponta a uma transição de um regime baseado em lideranças políticas para um regime de lideranças pretensamente antipolíticas de pendor tecnocrático e ou populista. O segundo abre a porta a formas de acção, discussão e deliberação políticas estranhas aos mecanismos de liderança que nos têm governado, libertando a democracia do fardo da representação.
A esquerda, creio, deverá saber trilhar este segundo caminho. Que não julguemos, por isso, que o que está em causa hoje é apenas Passos Coelho ou sequer a troika. A questão não é simplesmente inverter o ciclo económico de modo a aumentar o poder de compra da população ou mudar de governo de forma a minorar o ataque ao Estado social. A questão é também, e já, a da sede de poder político que muitos dos que não estão nos cargos de liderança e representação sentem. A sua repartição é tão urgente como a partilha do pão.

sábado, 22 de setembro de 2012

Doa a quem doer

 
Têm surgido em órgãos de comunicação social diversas referências ao RDA69, que atribuem a esta associação e aos seus associados qualificativos como “radicais violentos”, “activistas anarquistas” ou “militantes perigosos”.
É nomeadamente o caso das peças assinadas por Valentina Marcelino no Diário de Notícias a 27 de Março e a 13 de Setembro, bem como as que foram publicadas no Correio da Manhã, a 21 de Maio, por Henrique Machado, Miguel Curado e Sara Carrilho, e a 17 de Setembro, com a assinatura de João C. Rodrigues e Miguel Curado.
Este conjunto de peças jornalísticas veicula várias informações falsas, com o intuito de criar um clima alarmista e permitir uma escalada de criminalização da contestação social.
Cumpre por isso esclarecer os seguintes aspectos:
  1. O RDA69 não organiza nem organizou estas ou outras manifestações. É um espaço onde acontecem jantares, projecções de filmes, concertos, festas e debates. A programação é pública e está no nosso blog, as actividades estão abertas a todas as pessoas, militantes partidárias ou não. O RDA69 não joga nem pretende jogar o jogo das identidades, sejam elas da esquerda radical ou dos anarco-libertários.
  2.  A PSP, através dos seus porta-vozes na imprensa, pretende fazer-nos acreditar que há um comité oculto, que coordena todos os confrontos e actos de desafio às autoridades nas manifestações, de maneira a mais facilmente poder isolar, espancar e prender os que não aceitam as medidas de empobrecimento generalizado em curso e se mobilizam para as contestar. É com esse objectivo que avançam a enorme mistificação segundo a qual quatro pessoas detidas na manifestação de 15 de Setembro estariam ligadas ao RDA69. Embora estejamos solidários com todas e todos as/os que saíram à rua no passado Sábado, desconhecemos a identidade dos detidos, com os quais não possuímos qualquer relação.
  3. Estas reportagens fazem parte de uma estratégia de isolamento dos grupos ditos «radicais» relativamente ao resto da população. Cada vez mais gente vê cada vez mais claramente que a crise e a austeridade são excelentes oportunidades de negócios para uns poucos, enquanto a maioria da população se vê constrangida a empobrecer ou emigrar. O Governo está prestes a cair, com os seus membros a serem vaiados e contestados onde quer que se desloquem. Vivemos tempos excepcionais, em que o medo e o desespero começam a dar lugar à revolta e à contestação. Com esta estratégia, a PSP arrisca-se a ver o seu cerco cercado, enquanto se distrai a vigiar jantares e conversas. É apenas natural que se multipliquem os «incidentes» e os «excessos», sem que haja um centro ou uma direcção a coordená-los. É inútil procurarem um quartel-general da revolta porque a revolta está em todo o lado.
  4. O RDA69 é um espaço de debate e encontro, um lugar de crítica, de partilha, do comum. Naturalmente que isso nos torna perigosos aos olhos de quem tem o poder. Não negamos que as actividades que promovemos têm como horizonte um mundo construído por pessoas livres e iguais, onde, entre outras coisas, não haja lugar para polícias ou prisões. Comunicados policiais assinados por jornalistas não mudarão a nossa determinação. Este vai continuar a ser o sentido do que fazemos, doa a quem doer.
Cópias e ligações para as notícias referidas estão disponíveis aqui.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Políticas da História


Deixo aqui o meu contributo em torno da actual polémica historiográfica, hoje publicado no "Público".

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POLÍTICAS DA HISTÓRIA
por José Neves 

Os trabalhos de Rui Ramos e de Manuel Loff constituem dois contributos importantes para o conhecimento do Portugal Contemporâneo e a ambos devemos uma crítica despida de elogios fáceis e de insultos gratuitos. Da minha parte, contem com estes cinco pontos.  

1. Se é por de mais evidente que um historiador procura conhecer o passado, menos assumido é que nesse processo também conta o presente em que o historiador se situa. Com efeito, o meio político-ideológico em que se move todo e qualquer historiador marca inelutavelmente o seu trabalho científico. Por isso, quando António Barreto elogia a “História de Portugal” coordenada por Rui Ramos porque a obra teria finalmente permitido vencer «o duopólio fanático estabelecido há muito entre as Histórias ditas “da esquerda” e da “direita”», é a uma ilusão de imparcialidade que estamos a ser atraídos. O primeiro obstáculo ao debate surge aqui, nesta suposição de Ramos como um historiador neutral, que ignora o facto do próprio Ramos ter já assumido – e bem – que o seu olhar historiográfico não é estranho ao seu percurso político.  

  

2. Esta relação entre a agenda historiográfica e os interesses político-ideológicos do historiador desenvolve-se de um modo complexo, pouco directo e nada linear. Desde logo, a relação não é unívoca. Isto é, a agenda historiográfica do historiador é sensível aos interesses políticos do historiador, mas estes também a reflectem. Na sua crítica, Loff observa a afinidade entre a política de Ramos e a historiografia de Ramos, mas, a meu ver, dá um passo abusivo, sugerindo que o trabalho historiográfico de Ramos estaria ao serviço de um propósito político. Nesta sugestão de instrumentalização tem tido origem parte dos equívocos do debate que Loff em boa hora lançou.

3. Uma outra parte dos equívocos tem origem na leitura que Ramos fez das críticas que lhe foram dirigidas. Esta leitura produziu mais do que uma distorção, como expôs Mário Moura. Por exemplo, se Loff escreveu que para Ramos “o salazarismo era ‘uma espécie de uma monarquia constitucional’”, Ramos acusou Loff de ter dito que ele, Ramos, consideraria o Estado Novo “um regime absolutamente idêntico à monarquia constitucional do século XIX”. Se Loff escreveu que o Salazar de Ramos não tem “‘nada de uma personagem ditatorial’ como a dos líderes da Europa fascista do tempo”, Ramos acusou Loff de ter dito que o Salazar de Ramos “não era uma personagem ditatorial”. E se Loff escreveu que o texto de Ramos apresenta “uma ficção sinistra e intelectualmente cínica sobre a ditadura salazarista”, Ramos acusou Loff de o “tachar de fascista “cínico” e “sinistro””. Em suma, Ramos terá que cuidar um pouco melhor da sua própria criatividade hermenêutica.

4. O maior problema que encontro na actual polémica reside, porém, no facto de deixar na sombra um conjunto de questões que não implicam directamente o debate sobre a natureza política do Estado Novo (em que tendo a concordar com a posição de Loff) ou o modo como Ramos dá conta da repressão salazarista (já criticado por Rosas, Costa Pinto ou Lucena) e da Guerra Colonial (desconstruído por Ramada Curto). A primeira destas questões tem que ver com a ideia de política subjacente ao olhar de Ramos. Procurando contrariar o que entende ter sido uma tendência historiográfica para a sobrevalorização do económico, do social e das estruturas, e para a desvalorização do político e da acção, o esforço de Ramos tem acusado dois vícios: tende a circunscrever o poder à esfera da política e, como sublinhou Francisco Bethencourt, a confinar o domínio da acção política às atitudes e comportamentos do que chama de elites. A esta luz, teria sido porventura mais ajustado, no que à parte contemporânea diz respeito, que se tivesse optado por um título como “História Política de Portugal” ou “História Elitista de Portugal”.

5. A segunda questão que não tem sido debatida é a da escrita da história. Existem factos para quase todos os gostos, o que, não querendo dizer que não há risco de um historiador simplesmente inventar acontecimentos que não sucederam, exige que também foquemos não apenas o modo de selecção mas também a forma de enunciação dos factos. A título de exemplo, chamo a atenção para a relação que na escrita de Ramos se tece entre a sua voz de narrador e a fala das fontes por ele citadas. Na negociação destes discursos, essa escrita tende, frequentemente, a criar uma indefinição entre a fala do narrador e a fala dos documentos que cita, deste corpo-a-corpo nutrindo-se, em parte, a ilusão de neutralidade que ampara o entusiasmo pueril de um Barreto. Ora, se é bem verdade que o risco de ilusão jamais poderá ser completamente eliminado, podemos pelo menos exigir que ela não seja objecto de um uso instrumental. Infelizmente, é tal instrumentalização que me parece ocorrer na resposta que Ramos dirige a Loff. Se percebo que critique Loff por este citar partes do seu livro como se fossem fala do próprio Ramos e não, como em alguns casos sucede, fala de terceiros que Ramos teria simplesmente citado (“a expressão não é minha, mas de Massis”, diz Ramos); não posso entender a que propósito, ao defender-se de uma outra crítica de Loff, Ramos opta por citar em seu abono a fala de uma das fontes por ele convocada, agora pedindo-nos que a aceitemos como reveladora do seu próprio ponto de vista (“cito uma carta impressionante de José Marinho, de 1937, que bem revela o peso opressivo da ditadura salazarista”, diz Ramos a Loff). Tal como os que apontei a Loff, estes são erros admissíveis, de que ninguém está a salvo, incluindo nós próprios, é claro. A única coisa inadmissível em toda esta polémica é o apelo de Filomena Mónica ao silenciamento de Manuel Loff.  

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

História do presente


 
E subitamente, sem que nada o fizesse prever, uma polémica historiográfica no espaço público, com direito a não poucas acusações, insinuações e insultos, para além de um moderníssimo apelo à censura.
Comecemos pela resposta de Rui Ramos a Manuel Loff, que transfigura notoriamente as acusações que lhe são feitas, de maneira a convertê-las numa caricatura para a qual possuía já, arquivada num qualquer baú, uma resposta tão rápida quanto insatisfatória. Infelizmente, os debates dignos desse nome não costumam travar-se contra as afirmações que se desejaria terem sido proferidas mas não foram. Tudo seria evidentemente mais fácil se o trabalho de cada um se confrontasse apenas com argumentos superficiais e avaliações primárias.
É um facto, desses que os historiadores «objectivos» não dispensam, que ninguém acusou Rui Ramos de ser fascista, mas antes de se empenhar no sentido de negar esse qualificativo ao Estado Novo e a Salazar. É um facto que Loff acusa Rui Ramos de apresentar o Estado Novo como uma «espécie» de monarquia constitucional. E é um facto que Rui Ramos lhe chama caluniador por este o ter acusado de afirmar que o Estado Novo era um regime «absolutamente» idêntico à monarquia constitucional. 
A escolha de palavras é aqui todo um programa, uma vez que o rigor no seu uso é a própria matéria de que se faz o ofício de historiador e, não se negando a Rui Ramos capacidades para o desempenhar, apenas se pode concluir que essa confusão é na verdade uma estratégia argumentativa. Uma «espécie de» não significa – agora como no tempo em que este debate podia levar pessoas à prisão - «absolutamente idêntico a» e neste domínio, como noutros, o diabo habita nos pormenores, pelo que a subtileza não é um aspecto secundário.

O exercício poderia prosseguir, mas teríamos sobretudo mais do mesmo e uma conclusão acabaria por se impor: Rui Ramos procurou furtar o seu trabalho ao debate público e convocar em seu auxílio as numerosas penas da opinião conservadora contra os rigores do «antifascismo». E é essa opinião conservadora que interessa discutir. Ela diz-nos muito mais acerca do século XX em Portugal - o lugar inóspito de onde provêm - do que os escritos de Rui Ramos sobre o assunto. 
A facilidade com que emergiram no espaço público termos como «normalização»,«serenidade académica» ou «consensos mínimos», a forma como se denunciou uma «cultura de guerra civil» ou «algo de doentio e fanático» a propósito dos artigos de Loff, é já um sinal de que se tocou num tema de óbvias ressonâncias conflituais. A dimensão política desta discussão parece ser incontornável. Não será esse um dos menores méritos de quem se pronunciou criticamente acerca do trabalho coordenado por Rui Ramos. 

domingo, 8 de julho de 2012

O Sistema


(o meu artigo no i da última quinta-feira)

Já foi assinalada a triste sina de um governo que, fazendo bandeira da crítica ao facilitismo na educação, acaba por nos oferecer o percurso educativo do seu homem forte, Miguel Relvas, como um testemunho exemplar do que é facilitismo. Dito isto, e apesar de por estas bandas bem podermos com o mal de Relvas, convém deixar claro que o homem é agora vítima de um sistema que, apesar de alimentado por figuras como ele próprio, deve ser objecto da nossa crítica por inteiro e não fulanizadamente.

Que sistema é este? É um sistema político cujo funcionamento está fundado na ideia de que para o mundo não desabar será necessário dividirmo-nos entre uma elite que governa e uma massa que deve ser governada. É um sistema que hoje defendendo que essa elite seja apurada democraticamente, e proclamando o direito de todos a serem não apenas eleitores mas também eleitos, rapidamente trai este princípio elementar sobrepondo-lhe a ideia de que nem todos têm as competências intelectuais necessárias ao exercício da governação. Um sistema que, em suma, acaba por defender que só os alegadamente mais habilitados deverão ser escolhidos para governantes.

É no quadro deste sistema que Relvas, apesar das inegáveis qualidades pastorais evidenciadas ao longo da sua carreira político-partidária, pressentiu que só depois de ter o carimbo de doutor na testa é que estaria plenamente habilitado a fazer carreira governativa. E aqui é importante sublinhar que a universidade surge em palco como uma poderosa autoridade que legitima a distinção entre os mais e os menos dotados da capacidade de serem competentes, ou, na nova língua empresarial-académica, da capacidade de “excelência”. Com efeito, é sabido que em Portugal a posse de um curso superior é um dos mecanismos de distinção mais prestigiados. O poder da instituição universitária (mas poderíamos também alargar às instituições escolares em geral) enquanto entidade legitimadora da hierarquização das inteligências, que define que ali vai um homem inteligente, e que acolá ficou um indivíduo incapaz, é desmesurado. Mais importante ainda: precisamos de começar a questionar o princípio de que são os mais inteligentes que devem governar; e, sobretudo, devemos começar a questionar o que é isso de inteligência, de competência, de excelência.

O problema, insisto, não é o diploma de Relvas, tal como o problema não era o diploma de Sócrates. Infelizmente, o culto da formação escolar e universitária como prova de superior inteligência, ou da própria ideia de que a inteligência é coisa para ser medida e quantificada para depois se estabelecer a lista dos mais e dos menos desta vida, não é apenas obra dos percursos sinuosos dos homens mais odiados do momento. O culto está a tal ponto espalhado que se insinua em quase toda a vida política, mesmo entre aqueles de cujas boas intenções não duvidaremos. É por exemplo pouco entusiasmante verificar que, na mesma semana em que assistimos a mais este caso Relvas, tenha proliferado um sentimento de indignação a propósito do baixíssimo ordenado pago a um grupo de enfermeiros, como se por serem enfermeiros tivessem direito a um salário mais elevado do que um trolha. Entendamo-nos: 4€ à hora é de facto um salário miserável e merece a indignação generalizada mas esta situação não é mais revoltante por se tratar do salário de um diplomado do que de um não-diplomado.  

terça-feira, 26 de junho de 2012

Da invenção do proletariado


"Religados e reanimados no monstro estão os membros daqueles – os 'pobres' – que a quebra das relações feudais empurrou para a vagabundagem, a pobreza e a morte. Apenas a ciência moderna (…) lhes pode oferecer um futuro. Cose-os de novo, molda-os de acordo com a sua vontade e, por fim, dá-lhes vida. Mas, no instante em que o monstro abre os olhos, o seu criador encolhe-se, horrorizado.” (Franco Moretti, aqui ) Deu vida a algo que tem 'vida própria', por mais preso que esteja na relação com o seu 'dono'. E tanto mais será o horror quando, como observou o meu amigo Ben Dawson, a quem devo esta referência, o monstro começa a vaguear, porque está sem trabalho.

domingo, 24 de junho de 2012

Contributo menor para o futuro da esquerda

(o meu artigo no i da última quinta-feira)


De há uns tempos a esta parte, os debates sobre o futuro da esquerda em Portugal têm sido alimentados por alguns contributos que afirmam ter chegado o tempo da unidade. Estes contributos vão de rigorosos exercícios de cálculo eleitoral a comoventes desabafos de alma, mas eu queria colocar aqui três entraves à famigerada unidade.
O primeiro entrave tem que ver com uma divisão entre, de um lado, quem coloca mais empenho na reivindicação da democracia do que na crítica do capitalismo e, do outro, quem mais se dedica a combater o capitalismo e menos preza a luta pela democracia. Esta divergência entre quem acha que a esquerda é sobretudo nome de uma luta pela liberdade política e a quem acha que a esquerda é sobretudo uma luta pela igualdade económica não se resolve através da busca de um mínimo denominador comum, como alguns pretendem, mas maximizando: precisamos de uma esquerda que assuma que a sua luta deve ser simultaneamente uma luta radical pela igualdade económica e um combate sem tréguas pela liberdade política. Precisamos de uma esquerda ciente de que não há combate ao capitalismo que não seja luta pela democracia e vice-versa. Um exemplo, entre outros possíveis, de uma tal esquerda estaria numa política que travasse os combates pela liberdade de expressão não apenas como uma luta por direitos políticos ou pela liberdade de imprensa, mas também como uma luta pelo direito de todos os trabalhadores a não passarem a maior parte do dia e dos dias a fazerem o que não querem e sob o comando de outrem.
O segundo entrave à unidade tem que ver com as formas de poder que as esquerdas preconizam e praticam. Aqui há também uma divergência fundamental. No actual mundo das palavras, à direita como à esquerda, um dos casos de maior sucesso é provavelmente o da chamada elite, termo que circula com o maior à vontade por entre peças jornalísticas e discursos parlamentares, saltando de livros de História para o verbo de politólogos. Colada à boca de quase todos, a palavra não é, porém, usada de um modo sempre idêntico. Há quem a utilize de maneira elogiosa e quem dela faça uso com intenções críticas. E entre estes últimos cava-se uma distância que não é menor entre, por um lado, os críticos da elite que a depreciam porque entendem que é necessário apurarmos uma nova elite que substitua a velha elite e, por outro, os que a rejeitam porque simplesmente acreditam que um compromisso radical com a democracia deve simplesmente riscar a palavra do seu dicionário. Há uma bifurcação, sem ponto de convergência à vista, entre quem entende que a esquerda deverá ser sobretudo nome de um projecto que visa derrubar governos de direita e substituí-los por governos de esquerda e quem julga que a esquerda é antes de mais o nome de um projecto de combate à elitização da política, isto é, um projecto de crítica democrática da democracia representativa. Eu estou com estes últimos – nenhum combate político à esquerda pode continuar a ser travado com recurso às velhas fórmulas hierarquizantes em que uns dirigem e outros são dirigidos, uns planeiam e outros são planeados, uns pensam e outros são pensados; dirigentes revolucionários ao leme da vanguarda partidária e economistas reformistas que analisam a sociedade do alto do Estado devem ser atirados para o caixote de lixo da história.
Finalmente, o terceiro entrave é a obsessão com as frases claras e o estilo categórico, que podem parecer úteis para combatermos a direita, mas que a médio prazo pagaremos caro. Isto é, não pesemos excessivamente as nossas preocupações e as nossas propostas, o que naturalmente abrange as que fazem parte deste meu contributo... Não percamos muito tempo a demarcar o que está dentro e o que está fora dos nossos territórios. E isto não é só válido para os partidos ou para os partidos que são apodados de ortodoxos. Aplica-se seguramente ao manifestante anti-autoritário que ao atirar ovos à sede de um partido de esquerda se limitou a erguer as paredes do seu próprio partido e a fazer-se capataz do que deveria ser indomável, o anarquismo. E aplica-se também aos que em nome da unidade dos partidos de esquerda decidem simplesmente tecer armas contra todos os sectarismos de todos os partidos de esquerda, como se a sua resposta à fragmentação partidária da esquerda fosse simplesmente criarem mais um fragmento que, por lhe chamarem unidade, é suposto não tomarmos como mais um fragmento. Infelizmente, fazer bandeira da heterodoxia é caminho rápido para chegar a ortodoxo.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Anos é forti - Santa Filomena, Amadora



Hoje, quinta feira 21 de Junho, pelas 10h moradores e moradoras do Bairro de Santa Filomena (Amadora) dirigiram-se pacificamente à Câmara Municipal de Amadora para entregar uma carta ao cuidado do Presidente da Câmara Municipal da Amadora. Chegamos lá, tiramos a senha para ser entendidos/as e depois de ler e assinarmos a carta o nosso objectivo era entregá-la aos/às funcionários/as da Câmara para que ela fosse remetida ao Presidente. Mal entramos, completamente pacificamente, como qualquer cidadão ou cidadã deve poder entrar  na  sua câmara municipal e ser atendido/a, foi incompreensivelmente chamada a policia municipal que veio em massa.
Somente estávamos à espera da nossa vez para entregar a carta assinada por nós. Ainda assim, tendo em conta o contigente policial, à medida que tinhamos assinado a carta , fomos saindo do edifício e a polícia, depois de ter feito um cordão policial , hostilizou os moradores e moradoras e perante o pedido de calma à polícia por parte de uma pessoa que integra a Plataforma pelo Direito à Habitação , explicando que somente queríamos entregar uma carta, um agente policial agrediu-a violentemente, estando ela neste momento ainda no hospital. 
A polícia agrediu igualmente um repórter que estava a documentar e retiraram-lhe o cartão de memoria que continha mais fotos e video das agressões. Depois disso acontecer os/as moradores/as manifestaram-se em frente à Camara aguardando que um morador que foi detido fosse libertado, que a colega que foi agredida fosse atendida pelo INEM e levada para o hospital e que nos deixassem entregar a Carta endereçada ao presidente da Câmara. 
A actuação da policia municipal foi completamente injustifícável e viola os nossos mais elementares direitos.
Enviamos em anexo as únicas fotos que foram tiradas por um morador desde seu telemóvel (foto em anexo), mostrando a agressão , bem como a carta que foi entregue.

 Os/as moradores/as do Bairro de Santa Filomena
Plataforma pelo Direito à Habitação


Pode-se ler abaixo a carta que os moradores desejavam entregar na C.M.A.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O processo da Fontinha desmontado como se fosse um esquentador velho - "Proselitismo na via da educação" e "internacionalismo alarmante"



Durante o despejo do Espaço Colectivo Autogestionado (Es.Col.A) do Alto da Fontinha, no Porto, no passado dia 19 de Abril, dois dos detidos, António Pedro Sousa e Ricardo Ribeiro, foram acusados de crime de injúria e crime de resistência e coacção sobre funcionário. Em julgamento sumário, no dia 2 de Maio, foram ambos condenados a pena de prisão de três meses, substituída por multa mais pagamento da taxa de justiça, num total de €954 cada, segundo sentença lida a 10 de Maio.
Vimos por este meio enviar, em anexo, cópia do Recurso da sentença - que deu entrada no Tribunal de Pequena Instância Criminal do Porto, 3ª Secção, no passado dia 1 de Junho - de forma a que este seja divulgado e ponha a nu a farsa que foi este julgamento nitidamente político. Junta-se também em anexo cópia dos factos alegadamente provados em Tribunal, contestados no Recurso. Refira-se que o documento referente ao recurso é antecedido de um índice, com links e bookmarks para facilitar o manuseamento.
Denunciamos a violação do processo equitativo, violação do princípio da legalidade, ausência do respeito devido às instituições vigentes, plausibilidade da ausência de defesa efectiva, de onde ressalvamos:
O facto da Procuradora do Ministério Público (MP), que representa a fiscalização da Lei, ter nas suas alegações finais tecido considerações na primeira pessoa do singular sobre as convicções políticas dos arguidos, acusando-nos de "proselitismo na via da educação" e de um internacionalismo alarmante. Chegando ao cúmulo de ter dito que "se não queremos suportar situações que não nos agradam, vivemos isolados na Serra da Lousã". E o facto da Procuradora do MP e do Juiz de Direito do Tribunal de Pequena Instância Criminal do Porto - 3ª Secção terem, com toda a evidência e à vontade, conduzido os testemunhos de acusação e ignorado os de defesa.
E fica a dúvida, uma vez que nada ficou provado, o que é que afinal sustenta a acusação?

Recurso Processo Despejo Fontinha Factos Pretensamente Provados Fontinha

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A pedra de roseta





Durante milhares de anos a escrita dos antigos egípcios permaneceu indecifrável para os seus estudiosos. «Hieróglifo» era um sinónimo de gatafunho ilegível. Até que um soldado de Napoleão encontrou, nas imediações da cidade de Roseta (Rashid), no delta do Nilo, uma estela de pedra trilingue com o mesmo texto escrito em grego antigo (que era bem conhecido), demótico (uma variante escrita mais recente do egípcio) e com hieroglifos. Passou a ser possível a partir daí decifrar os textos deixados por uma das mais antigas civilizações do mundo.
Helena Roseta acaba de nos presentear, por um desses acasos em que a história é fértil, com algo semelhante. Durante os últimos anos pareceu ser-lhe possível conjugar tudo e um par de botas:  discursos de apelo à cidadania e à participação cidadã com a mais pragmática e cínica participação nos mecanismos de governação; apologias da rua e do espaço público com programas de reabilitação urbana que expulsam imigantes dos espaços que estes utilizam há décadas; retóricas da esquerda florida e colorida com indisponibilidade para debater o que ponha em causa alguns dos mais óbvios mecanismos de poder que estruturam a vida social. E eis que agora tudo se decifra e se torna claro, clarinho, claríssimo, clarão. Os hieróglifos tornaram-se legíveis. Roseta gosta de fazer poesia com floreados de esquerda e política autárquica com bastões de polícia. A sua política de habitação tem como base o desalojo e a existência de edifícios limpos e devolutos.
É dar uma vista de olhos a este despacho serôdio e fica-se com uma ideia do que vai naquela cabecinha. Um prédio vazio desde 2005. Que foi ocupado em 2010 e, uma vez desalojado, permaneceu vazio com a fechadura lá deixada pelos ocupantes. Que tinha as janelas abertas, o interior cheio de lixo, entulho e merda de pombo, a deteriorar-se. E eis que afinal há mil e um planos para ele, estava tudo pronto a arrancar e só estes malvados ocupantes o vieram impedir. Helena Roseta tem o supremo cinismo de anexar ao seu despacho fotografias tiradas pelos próprios ocupantes para mostrar o estado de deterioração em que se encontrava o edifício... à data da ocupação. Mas afinal, com tantos e tão bons projectos, os serviços da CML não dispunham das suas próprias imagens do interior, planos detalhados, um inventário, nada? Devemos realmente concluir que só a ocupação do imóvel gerou interesse por esse imóvel? Que pretende agora a CML  «garantir o direito à habitação a famílias carenciadas» - 2150 a aguardar desde Setembro de 2011(!)- após deixar o edifício ao abandono durante anos e anos? Que estava já agendada uma vistoria para Maio de 2012 e que só a ocupação o impediu? A desonestidade é tanta que Roseta se dá ao luxo de invocar o problema com a canalização que motivou infiltrações no espaço da ILGA quando esse problema foi resolvido por iniciativa dos ocupantes no espaço de dois dias.
Finalmente, vale a pena dar uma vista de olhos ao despacho de resposta do juiz à providência cautelar interposta pelos ocupantes. Traduzindo do juridiquês: Helena Roseta, muito preocupada com os fogos devolutos da CML ocupados por lisboetas, alterou o Regulamento de desocupações de fogos municipais, reduzindo de 90 para 10 dias úteis o prazo de abandono dos mesmos após notificação camarária. Simplesmente, a competência para o fazer não pertence ao executivo camarário mas à assembleia municipal, que redigiu e aprovou o regulamento anteriormente em vigor. Sendo a alínea do regulamento invocada na notificação camarária inaplicável, porque sem qualquer validade jurídica, não poderia aquela notificação ser outra coisa que não nula.
Ora o juiz que olhou para o caso entendeu que não era necessário deferir o decretamento provisório da suspensão dos actos administrativos por ser aquela figura jurídica aplicável apenas no caso de existir uma situação urgente de ameaça irreversível aos direitos do requerente, o que não lhe pareceu ser o caso, uma vez que o desalojo pode ser revertido e a casa devolvida aos ocupantes. Resolveu então admitir a providência cautelar, suspendendo assim o acto administrativo em causa (ou seja, a notificação de despejo assinada por Roseta) e intimando as duas partes a apresentar provas das suas alegações. Entende Roseta no seu despacho que as suas próprias convicções, argumentos e alegações são prova bastante de que é do interesse público o desalojo de S. Lázaro, mesmo sem respeitar o Regulamento de desocupações de fogos municipais em vigor, que não é aquele que ela pretenderia, mas aquele que efectivamente seguiu as vias legais. E ordena por isso um despejo absolutamente ilegal, que não o é menos por ser aplicado por agentes da Polícia Municipal e pela PSP, fardados, equipados e armados, cheios de vontade de bater, como se pode ver pelos vídeos acima expostos. 
Helena Roseta está disposta a tudo para garantir que as ocupações selvagens de fogos devolutos municipais não passam por cima dos seus desígnios de caridadezinha para com as «famílias carenciadas». Daqui a pouco há eleições e não há nada como umas imagens de distribuição de casas a gente humilde para lhe dar aquele pedigree de «esquerda moderna e democrática com preocupações sociais» que é o alfa e o ómega da sua carreira política. Helena Roseta enganou-se e o seu engano vai-lhe custar caro. A sua carreira política acabou aqui, numa manhã quente de Maio, em que às suas ordens um bando de gente fardada despejou o número 94 da Rua de S. Lázaro, agredindo e detendo quem se opôs a uma medida ilegal. A vida, essa, vai continuar. Se pensam que é assim que nos vencem  pensem novamente. Isto ainda é só o início. 

Helena Roseta


Deixemos em paz, por um momento, os polícias que estão a conduzir a desocupação de São Lázaro. 

O centro da questão é Helena Roseta, primeiro, e António Costa, depois. 

Não esperava que Roseta promovesse ocupações. Ou sequer que fizesse alguma coisa de esquerda. Em relação aos eleitos, eu sou assim, espero pouco das pessoas, que é para depois não me desiludir à grande. 

Mas esperava que Roseta não fosse mais zelosa do que os tribunais e que não ultrapassasse a lei pela direita. 

Roseta não precisava de ter feito nada de esquerda, nada de democrático, nada de cidadão. Bastava-lhe ter cumprido a lei como qualquer outro animal. 

E também ajudava ter vergonha na fronha. Que lhe dêem a escutar as críticas que fez a Rui Rio pela desocupação da Fontinha. Que lhe mostrem imagens da senhora vereadora que procurou assumir protagonismo na Assembleia Popular do Rossio.

Roseta era do PSD, passou para o PS, passou para a ala esquerda do PS, criou um movimento de cidadãos à esquerda do espaço partidário. 

E de há uns tempos para cá iniciou o caminho de volta, embora agora, parece, com uma velocidade que não se viu antes, pois num par de anos: voltou para o espaço partidário que antes classificara como decadente; voltou para uma lista do PS sob o comando de António Costa; e agora, finalmente, ultrapassou sentenças judiciais pela direita. 

Com argumentos que fazem dela a Christine Lagarde portuguesa. (Diz Roseta que está a desocupar uma ocupação ilegalmente porque há pessoas mais carenciadas que efectivamente necessitam de casa ao contrário dos ocupas). 

Só não lhe chamo de vendida porque nunca comprei toda aquela gelatinice.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Com o maior cuidado possível


 
                                      Stress na Morais Soares por lxgorila
Em resposta ao vídeo que anda a circular pela internet, onde se vê um pai com uma criança ao colo a ser detido por 10 agentes da PSP, entendeu aquela corporação emitir este comunicado:
Um elemento policial em serviço remunerado na Rua Morais Soares em Lisboa, intercepta um cidadão a exercer condução fazendo uso de telemóvel. Durante a abordagem, apercebe-se de que o cidadão se encontra acompanhado por um filho menor (de colo) e por um cunhado. O condutor assume uma postura agressiva e injuria o polícia. O Elemento policial, em função da situação solicita reforço para o local. Já na presença do reforço, o elemento policial interveniente informa o condutor de que a sua conduta constitui ilícito criminal pelo que deveria cessar a sua conduta. Porque aquele a manteve e continuou a injuriar o polícia, este deu-lhe voz de detenção. Apercebendo-se disso, o condutor retirou o filho do colo do cunhado e serviu-se da mesmo como “escudo” para evitar a consumação da detenção. Aquilo a que se assiste no filme é exactamente ao momento em que, com o maior cuidado possível, os elemento policiais separaram e retiram o cunhado, asseguram a integridade física da criança, colocando-a temporariamente sob a atenção e cuidado de uma agente feminina, e depois procede à manietação do condutor, agora detido, sem ser possível verificar qualquer imagem de violência.
 
É tudo tão ostensivamente falso que uma pessoa até começa a dar credibilidade às notícias do Correio da Manhã. A ver se percebemos bem.
O cidadão injuria o agente, que sente a necessidade de chamar reforços, e depois o cidadão fica tranquilamente a aguardar a chegada desses reforços, momento em que o agente “informa o condutor de que a sua conduta constitui ilícito criminal pelo que deveria cessar a sua conduta” (quanta ternura…) e, na presença de 10 agentes da PSP, o cidadão continua a injuriá-lo, usando depois o filho como escudo? Isto tudo enquanto as pessoas que passam assistem chocadas e gritam com a polícia?
É mesmo esta história, cheia de porcos com asas e galinhas com dentes, que nos querem fazer engolir como se fosse plausível? Queremos mentiras novas!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Demasiado bem para o nosso bem

 Que bem que se está em Portugal! Agora a sério. Que clima! Que bem que se come! Que bom e barato é o vinho! Que bem escrevem os nossos grandes escritores! Que prestáveis são as farmácias! Que belos filmes passam na televisão! Que simpáticas as pessoas! Os benefícios que a CEE tem trazido! A quantidade de queijos franceses que já se podem comprar nos supermercados! A desfaçatez com que se entra em Paris ou em Londres! A rapidez com que agora vêm os filmes, os CD e os jornais estrangeiros! A estabilidade do escudo! Estou a falar a sério! Os concertos! A beleza da nossa terra! As praias por descobrir! A facilidade com que agora se compra um monte no Alentejo! Não, de facto, desculpem mas começa a ser inegável. É que não se está nada mal em Portugal. [...]
Perfeitos? Nós? Não, mas a verdade é que já fomos mais imperfeitos, sim senhor. Desculpem Iá. Já passamos mais fominha. Já aguentamos com mais barafunda. Já nos metemos em maiores confusões. Já foi muito mais difícil trocar notas de quinhentos paus por libras esterlinas. O leite já escasseou mais. O trânsito já foi mais interrompido por manifestantes. Até os ministros já foram mais incompetentes e desonestos que hoje são! Parece impossível, mas é verdade. Portugal arrisca-se a tornar-se um pais como os outros, atingindo o bem-estar e o tédio das suas congéneres europeias. Já repararam como hoje é raro aparecer uma noticia sobre Portugal na imprensa estrangeira? Não havendo um mínimo de caos, de crise, de cravos na mão, de bichas para a gasolina, de operários a falar durante horas na televisão, tudo ao som da cadência de governos sucessivos a cair ritmadamente, Portugal vai apagando-se da cena internacional. É triste! [...]
Mas calma. Não pode ser tão bom. Estamos demasiado bem para o nosso bem. Vem aí borrasca. E da grossa. Esta pasmaceira não pode durar. A característica "porreirinha" da nossa situação económica, política e social não é nem sadia nem natural. Vai virar, vai ser bonito! Estamos a atingir o limite. Existem várias maneiras de classificar o estado de uma nação, mas "está tudo numa boa" não é a mais sólida. Aqui há gato. Misturemos as metáforas. Ponhamo-nos a pau. Como dizem os ingleses "So you trust the Virgin, do you? Well, don't run then." Nós próprios dizemos que "Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas". E é verdade. Este período aparentemente folgado não é mais que um intervalo entre pauladas. É certo que os intervalos costumam ser mais curtos, mas se calhar o pauliteiro foi a Miranda ver a mãe. Descansem que ele já volta. Há-de vir com força redobrada. É só esperar pela pancada. [...]
O bem que se está em Portugal neste momento é como aquele calor abafado e morto que antecede uma tempestade. Vamos ser apanhados desprevenidos. Com a boca na botija do Halazon, a disfarçar o sabor do bagaço e do refogado na ânsia de alcançar um hálito mais europeu. Cuidado. Vai-se-nos entalar a mãozinha na urna do PSD e não a vamos poder tirar tão cedo. Vai ser um horror. Vai ser como antigamente. A câmara de vídeo vai ter de voltar para a loja, e o Zé e a Marieta para a casa dos pais e o bate-chapas para a célula da UDP e os fins-de-semana para o galheiro e as noites para a mercê da RTP e o Prof. Cavaco para o Algarve e Portugal inteiro para a fossa milenária onde sempre esteve metido e de onde provavelmente nunca deveria ter saído. É poético, não é?
K, nº9, O Arco da Velha: Portugal vai ser tão bom não foi?, Miguel Esteves Cardoso, Junho de 1991

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Vandalismo e destruição - A/C de Arménio Carlos e cª


La segunda jornada de la huelga de la minería finalizó con un paro total en las explotaciones y cortes de tráfico en las principales vías de comunicación que dejaron al Principado incomunicado durante varias horas. Los sindicatos calificaron de «completo éxito» las dos jornadas de protesta y los máximos dirigentes de las federaciones de la minería de CC OO y de Fitag-UGT celebrarán hoy una reunión en Mieres para analizar los paros y valorar la convocatoria de la Comisión de Seguimiento del Carbón, que tendrá lugar el próximo martes, en Madrid.
Como en la primera jornada, los trabajadores de la minería levantaron barricadas a primera hora de la mañana en la autovía del Cantábrico y en la autovía A-66, en la conexión con La Meseta, que provocaron caravanas kilométricas de vehículos. Unos 400 mineros leoneses cortaron el tráfico en la autopista del Huerna y mantuvieron cortada esta vía durante casi tres horas.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Coiso interrompido


Enumerar as trapalhadas acumuladas pelo governo no último ano seria fastidioso para o leitor e incompatível com a dimensão desta coluna. Fiquemo-nos por isso pelas da última semana, em que Passos Coelhos garantiu aos desempregados que não devem desperdiçar as oportunidades proporcionadas pela sua situação. É notório que o nosso primeiro sabe muito acerca de oportunidades (sendo que em geral não perde a de estar calado), nomeadamente as que lhe foram dadas por Ângelo Correia. 
Seguiu-se o senhor dos pastéis de nata e a sua mui freudiana alusão ao preocupante aumento do coiso, vocábulo de assinalável flexibilidade e polivalência, cujos usos são virtualmente inesgotáveis. Onde Passos viu hipóteses de empreendedorismo, quis Álvaro Santos Pereira demonstrar os dotes de oratória e criatividade semântica que fazem dele um dos produtos portugueses que todos gostaríamos de ver exportados. É difícil encontrar alguém tão competente na utilização do coiso. 
Sempre invejoso do protagonismo alheio, veio o ministro da espionagem intimidar uma jornalista do Público, sobre cuja vida privada parece estar bem informado, para os efeitos que se sabe e recorrendo aos métodos que se imaginam. Tendo as declarações de Relvas relativamente aos serviços secretos e ao seu ex-director sido tão cabalmente esclarecedoras, é apenas natural que se sinta incomodado quando alguém lhe sugere que elas estão cheias de incongruências. Felizmente acabou tudo em bem e o malicioso artigo onde elas eram esmiuçadas ficou numa gaveta. 
A isso se chama, na gíria jornalística, um coiso interrompido.  

Tudo no mundo acontece

“Foi golo?”, perguntou o Fausto, que não acreditava. “Foi”, fez o Marinho Sacadura. “Querias ópera?”
Cabeça baixa, beiços apertados para conter a parte menos nobre do vocabulário, o meu vizinho dirigiu-se ao cento e sete, tocou à campainha e pediu o lanche: era pão com marmelada. Lembro-me como se fosse hoje: de papo-seco na mão avançou para o quintal do Lopes e deitou tudo fora – lanche, raiva, ofensa.

Fernando Assis Pacheco, Memórias de um craque

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ahhh, se é assim tá bem

"Não me agradam as desocupações, mas todos os dias as temos: de famílias carenciadas que querem casas. Seria um precedente enorme. Não posso tratar este grupo de forma diferente do que trato essas famílias pobres"


Helena Roseta, vereadora da Habitação da Câmara Municipal de Lisboa.
Frase retirada daqui 

São Lázaro



Em Novembro de 2010, em dia de greve geral, um grupo de pessoas ocupou o número 94 da Rua de S. Lázaro, em Lisboa. Chamaram-lhe “casa do grevista” e ofereceram um jantar à luz de velas. Foram desalojadas pouco depois, a mando da C.M.L., que alegou ter para o prédio numerosos planos, daqueles que não podiam esperar. Reposta a devoluta normalidade, foi aquela parte do Desterro devolvida aos pombos.
Um ano e meio depois, o prédio continuava vazio e a autarquia, tão diligente a reclamar os seus direitos de propriedade, não se deu sequer ao trabalho de mudar a fechadura lá colocada pelos ocupantes. As janelas ficaram abertas, para que a fúria dos elementos se encarregasse do património municipal.
Um novo e alargado grupo de pessoas voltou ao lugar do crime no dia 25 de Abril para, num gesto de ressonâncias bíblicas, ressuscitar Lázaro. Encheram o edifício de vida e organizaram concertos, debates, exposições, oficinas e outras excentricidades, sem cobrar nada e com a porta aberta a quem aparecesse. Nada que sensibilize a atarefada vereadora da habitação, que, através da Polícia Municipal, intimou os ocupantes a deixar o edifício “limpo e devoluto” num prazo de dez dias.
Helena Roseta, que tem um arsenal de ideias de esquerda para a cidade, está aberta ao diálogo, nomeadamente para dizer o que é que não se pode fazer, escondendo-se atrás dos regulamentos e dos programas camarários, cujos méritos são visíveis quando se consulta a lista dos edifícios limpos e devolutos da C.M.L.
A autarquia ignorou durante anos a existência daquele prédio. Nada se perderá se continuar a fazê-lo. Os lisboetas saberão dar-lhe uso. 

Limpo e devoluto


domingo, 13 de maio de 2012

Elogio da Esquerda Radical grega


O meu artigo no i da última quinta-feira

Um boi não é um elefante, tal como um tigre não é um elefante, mas estes dois factos não permitem concluir que um boi e um tigre são uma e a mesma coisa. Lamentavelmente, é algo tão elementar como isto que a maioria dos comentadores políticos tem dificuldade em compreender, como mostrou a sua reacção às eleições gregas do último fim-de-semana. Os votos gregos, é sabido, permitiram à chamada Esquerda Radical (Syriza) obter um extraordinário resultado eleitoral e também permitiram a um partido neonazi entrar pela primeira vez no parlamento. Ora, a coincidência entre estes dois factos bastou para que a generalidade dos comentadores políticos viesse a terreiro alertar contra o perigo do extremismo, procurando meter a Esquerda Radical e os neonazis num mesmo saco.

Filiados numa tradição liberal que se tornou hegemónica nos últimos vinte anos e que, do centro-esquerda ao centro-direita, acreditou que o parlamentarismo político e o liberalismo económico norteariam a humanidade até ao fim dos seus dias, os nossos comentadores políticos parecem ter simplesmente perdido o norte. A actual crise mundial e a diminuição da credibilidade das narrativas liberais levam a posições terroristas que deveriam simplesmente envergonhar quem as assume. Porque o que os nossos comentadores nos estão a dizer sobre o extremismo dos gregos é, e traduzindo para a realidade portuguesa, que um Francisco Louçã e um skinhead Mário Machado sãao uma mesma e a mesma coisa.

Peço desculpa aos nossos comentadores, mas eu não compro esta argumentação. Bem sei que o debate em torno do totalitarismo fez o seu caminho durante o século XX. E até acrescentaria que nesse debate existem contributos importantes para quem, à esquerda, pretende travar um combate radical contra o liberalismo reinante e o fascismo emergente. Mas, e dito isto, é para mim claro que depois da queda do Muro de Berlim o debate em torno do totalitarismo acabou por ser cada vez mais reduzido a uma simples vulgata que tem servido quase simplesmente para combater a pluralidade de pontos de vista políticos. Nomeadamente, os pontos de vista de uma Esquerda Radical que os comentadores tentam sistematicamente desautorizar apresentando-a como expressão do tal monstro totalitário. 

Existem, além do mais, efeitos particularmente preocupantes que resultam do sucesso da vulgata anti-totalitária que hoje parece resumir a essência dos liberalismos. Um desses efeitos é a diminuição da capacidade de auto-crítica dos liberais. A tese de que os extremos se tocam tende a impedi-los de ver quão próximo o liberalismo esteve dos próprios extremos que denuncia. A tese não deixa que os liberais vejam a estreita colaboração entre grandes pensadores liberais como o economista Milton Friedman e regimes ditatoriais de extrema-direita como o de Pinochet. Não deixa também que os liberais se lembrem das relações de proximidade entre vários grupos e correntes liberais e as ditaduras de Hitler ou de Salazar. E, last but not the least, não deixa os nossos liberais recordarem que foi muitas vezes sob o signo do liberalismo, fosse ele de índole mais autoritária ou de tonalidade mais democrática, que teve lugar a aventura colonialista que aterrorizou uma grande parte do planeta. Não foram poucas as vezes que os liberais sacrificaram por completo os valores da democracia em nome da salvação do sagrado respeito pela propriedade privada.

Mas a vulgata anti-totalitária produz ainda um outro efeito não menos preocupante. Ao não hesitarem em dar como iguais a Esquerda Radical grega e o partido neonazi grego, mostrando tanto empenho na defesa do liberalismo económico (fortemente atacado pela Esquerda Radical) como na defesa do liberalismo político (fortemente atacado pela extrema-direita), os liberais de hoje não vêem os seus próprios erros actuais. Ávidos de irmanar a Esquerda Radical e a extrema-direita, os nossos liberais ignoram, por exemplo, que um dos pontos mais relevantes para a actual ascensão dos neonazis gregos (ou da extrema-direita francesa) é a crescente popularidade da sua mensagem de ódio aos imigrantes. E esquecem que neste particular aspecto, como em vários outros, as políticas levadas a cabo pelos partidos liberais do centro-esquerda e do centro-direita, na Grécia como na generalidade da Europa, estão bem mais próximas das políticas de repressão da extrema-direita. E se quem desta se demarca claramente é pelos nossos comentadores tido como radical, pois que então sejamos todos radicais. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Sol Nascente

Enquanto alguns músicos se contentam em fazer uma cançoneta contra o desperdício, que é uma espécie de hino não oficial do Ministério da esmola e da caridade social, em 1982 o artista plástico Joseph Beuys optou por inflamar Ronald Reagan com o slogan: «Queremos Sol em vez de Reagan». Em Maio de 2012 clamamos por uma repetição da história, renovando os votos de uma Primavera Global e um Verão quente e avassalador porque, como diria o Chullage, Já não dá para aguentar.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Subversivos promotores e publicitários radicais


 Vivemos tempos interessantes e uma pequena faísca basta para incendiar multidões. Quis o destino e uma profunda ausência de escrúpulos que, em pleno dia do trabalhador, o Departamento de Promoções do Pingo Doce se lembrasse de homenagear à sua maneira os operários mortos em Chicago, em 1886. O resto é o que se sabe: prateleiras esvaziadas num ápice, desacatos, confrontos, lojas fechadas, ruas cortadas e a intervenção da polícia. Passos Coelho, que prometeu mão pesada sobre quem promovesse tumultos através das redes sociais, sabe agora com o que está a lidar – subversivos promotores e publicitários radicais, que atiçam as massas e perturbam a ordem pública.
Não faltaram comentadores dispostos a garantir que se tratou de uma vitória simbólica do consumismo sobre a identidade de classe. Falta contudo algum fôlego a semelhante semiótica. Contra as sedutoras imagens veiculadas nos anúncios das grandes superfícies, onde a aquisição de mercadorias suscita sorrisos de despreocupado deleite e um brilhozinho nos olhos, vimos agora o pânico na cara de gerentes de loja, a raiva de quem perdeu um dia da sua vida para encher um carrinho de compras e a eminência de um total descontrolo da situação. Não terão sido poucos os clientes que imaginaram a possibilidade de desenvolver no futuro o espírito da promoção e obter um desconto de 100%.
Algo que não tirará o sono a Alexandre Soares dos Santos, reputado e abastado patriota, que conta com a autoridade do Estado para desencorajar tão criativa interpretação do seu marketing. É precisamente para isso que a Jerónimo Martins paga os seus impostos. Na Holanda.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Do supermercado enquanto espaço de conflito

Costumo fazer compras no Pingo Doce. Se a promoção fosse hoje, apenas não a aproveitaria por causa da confusão e, mais importante, porque a minha situação económica permite dispensar a adesão à campanha.

Algumas das análises produzidas em torno dos conflitos ontem verificados causam-me alguma perplexidade. Não percebo a suposta relação de incompatibilidade entre ir ao supermercado e participar na manifestação do 1.º de Maio, como se ambas se anulassem. Entre os milhares que ontem desfilaram na Almirante Reis (mais do que ano passado) certamente estariam pessoas que aproveitaram a sua manhã para ir às compras. Não se trata de consumismo, mas sim de fazer pela vida. 

Os conflitos entre consumidores do Pingo Doce são mais que ocasionais, constituindo uma herança do anterior regime legal. A proibição da abertura de hipermercados aos domingos e feriados levou algumas cadeias a reduzir as suas superfícies, garantindo assim o seu pleno funcionamento durante todos os dias da semana. A criação de espaços exíguos gerou, porém, dificuldades na mobilidade e na organização de filas, bem como aumentos do tempo de espera, ingredientes ideais para o bate-boca, o empurrão e a chapada. Imaginem tudo isto com o dobro ou triplo de pessoas…

Apesar de tudo, a afirmação do poder de cada um não se dirige apenas contra a pessoa do lado. Se o Pingo Doce recorre aos serviços da Polícia de Segurança Pública não será apenas por esta razão. De acordo com um estudo desenvolvido pelo Barómetro Anual Global do Furto no Retalho em 2009, os roubos em supermercados implicavam perdas no valor de 40 mil euros a cada hora que passava. Um valor que colocava Portugal nas primeiras posições do ranking e que nos permite observar a diversidade de relações de poder que se desenvolvem num espaço como um supermercado: relações de conflito e violência entre consumidores, entre estes e os trabalhadores de caixa, mas igualmente de cooperação entre os putos que tentam gamar qualquer coisa ou mesmo entre os putos e a trabalhadora de caixa, que, em violação da sua deontologia profissional, finge não reparar na obra dos meliantes. 

Algo que, dificilmente, poderá ser classificado como alienante ou conformista.

  

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Explodirão como bombas



Muito desejaria eu escrever sobre assuntos outros que não o aparelho repressivo do Estado, mas os tempos afiguram-se pouco próprios para o lirismo. Avisa-nos agora a PSP que duas pessoas juntas podem ser consideradas uma “manifestação não autorizada”, para justificar a acusação de “crime de desobediência” contra alguém que distribuía panfletos do Movimento Sem Emprego à porta de um centro de emprego.
Enquanto me esforço para manter ao largo todo e qualquer transeunte que tenha a nefasta ideia de se aproximar (os tempos são, recorde-se, de “tolerância zero”) e vou redigindo os necessários avisos prévios de todos os encontros planeados para a semana que começa (a dúvida inquieta-me: receberemos um comprovativo para provar aos zelosos agentes da autoridade que aquela troca de beijos no jardim seguiu os canais apropriados ou importa fazê-lo apenas no tribunal?), consulto um dos muitos textos subversivos que possuo na minha biblioteca.
Tem o inquietante título de “Constituição da República Portuguesa” e o que nele se dispõe fala-nos de um tempo e lugar remotos: 1. Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização. 2. A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação. (Artº 45).
Chegará porventura o dia em que, como profetizou Auden, os jovens poetas explodirão como bombas e percorreremos de noite os subúrbios em corridas de bicicletas. Os encontros deixarão talvez de constituir um acto subversivo. E os beijos serão, como devem ser, despreocupados e sem aviso prévio. Mas amanhã não será esse dia.
Maus tempos para o lirismo, no I on-line

(Abaixo está uma tradução muito minha e muito desajeitada do poema de W.H. Auden a que o texto faz referência. Não sei se já estava publicado em português. Talvez o nosso poeta-tradutor Miguel Óscar Cardoso o queira retocar...).