Escrevi, já há dois anos, um curto texto para servir de suporte a uma intervenção num debate realizado aqui e co-organizado pela Unipop. Estava perdido nas catacumbas do meu PC(Reconstruído), até que debates e eventos recentes me fizeram relembrá-lo (por exemplo, aqui, aqui ou aqui).
Haveria ainda isto, mas a confusão evidente entre polícia e política não pede comentários. Fernanda Câncio pode por isso ficar em paz, a discutir o seu conceito de democracia com o Comandante Metropolitano da PSP (estou certo de que vão os dois divertir-se imenso).
Deixo um lamiré e quem estiver interessado pode continuar por ali abaixo:
A actual crise da representação política – traduzida nos números crescentes de abstenção e no descontentamento relativamente à condução dos negócios públicos e ao funcionamento das instituições – é também uma crise das formas institucionais de resistência e conflito que contribuíram para moldar a sociedade em que vivemos, lá onde o espaço para a contratualização do conflito se vê reduzido pela crise da acumulação capitalista.
Muitos autores lêem nesse fenómeno uma crise das próprias condições de participação e de acção política. Esta apresentação teve o modesto propósito de questionar o vínculo entre os dois fenómenos. No esgotamento histórico da política baseada no dispositivo transcendental da soberania e na sua legitimação através da metafísica da representação, penso existir mais do que um elemento a saudar. A hipótese, plausível e realista, de que outras formas de política estejam contidas nesse esgotamento confronta-nos com o desafio de as reconhecer já em acto, de forma fragmentária, em vários sítios do globo e noutras tantas situações históricas ao longo das últimas décadas. A hipótese de uma configuração radical da democracia – de uma democracia que não se consome mas antes se exerce –, baseada numa subjectivação sem sujeição, na apropriação consciente do tempo e das condições de vida pelos indivíduos, abre horizontes que ultrapassam um simples aprofundamento da participação ou rejuvenescimento das instituições. Uma outra política pressupõe uma outra forma de vida. Superar a crise da representação exige que superemos a própria representação, que deixemos de assistir ao jogo e comecemos a jogar.
