A improvisação dos incompetentes
“a sociedade tolera mal que se junte à liberdade que ela dá uma liberdade que se toma”
R. Barthes
Um dos truques da filosofia, porventura o truque da filosofia, é precisamente o de fabricar ingenuidades. Quando elas não existem, é preciso inventá-las, para que se passe então à verdadeira vocação filosófica: diagnosticar os ingénuos e desmascarar as suas ilusões. Neste processo, cura e doença andam de mãos dadas, pois sem a ingenuidade o saber arrisca-se ao pecado capital da redundância: precisa de ingénuos como a boca do pão, o professor de alunos ou o padre de prevaricadores. Seria no entanto um equívoco confinar esta questão ao saber académico e às suas formas de legitimação: ela atravessa e estria todo o nosso campo social e político. Desfiemos um pouco esta ideia: o ingénuo é o inocente, o idealista, o insensato; a ele se opõe o esclarecido, o realista, o razoável. Assim se reparte um mundo. Gostaria de sugerir que esta divisão, muitas vezes subtil, é mais importante – ou seja, mais eficaz – do que os grandes fossos civilizacionais que estamos habituados a reconhecer: entre a razão e a loucura, a verdade e o erro, ou o bem e o mal. E é mais eficaz porque o ingénuo – que tem muitos graus, do pobre tolo, passando pelo jovem impetuoso, até ao fanático irredutível – é apenas ainda ingénuo. Ou seja, não é cego, apenas não está bem a ver. Basta portanto que ouça os que já sabem, que aceite fazer o caminho que os levou até lá, que se disponha a ver aquilo que os outros já viram e que, está bem de ver, está lá para ser visto. Esta lógica aplica-se não só a indivíduos, mas a colectivos: as democracias jovens são ingénuas, como o eram – ou são - os povos ditos “primitivos”. A ingenuidade é assim, por outras palavras, uma forma de atraso. Daí o leve sorriso, a piscadela de olho cúmplice, paternalista, e os ares de simpatia que parecem recobrir o termo, mesmo quando aplicado aos elementos tidos como perigosos, como o sejam os militantes cujas causas e ideiais, dizem-nos os esclarecidos, os impedem de ver o mundo tal como ele é. São por isso mesmo moeda corrente entre os fazedores de opinião histórias instrutivas acerca de como se deixaram para trás as doces, mas nem por isso menos nefastas, ilusões de juventude.