Como isto por estas bandas está mais sossegado do que o Belmiro de Azevedo quando se lembra de ir consultar o saldo bancário, resolvi aceitar o convite do Renato e tentar responder ao tal questionário, apesar de algumas reticências. Até porque "curioso com o Miguel Cardoso" soa bem. Dificilmente será grande remédio para a pasmaceira, mas pode ser assim uma espécie de óleo de fígado de bacalhau. Mete passarinhos, ministros, vómito e a determinada altura aparece um ralador com intuitos maliciosos. Fora isso é chato. Um inocente exercício de caganice, como todas estas coisas. E também falo de alguns livros. É ir por aí abaixo e seguir as tabuletas.
1 – Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Já li e reli muita coisa muitas vezes, umas quantas por obrigação mas quase sempre com gosto. Sobretudo os modernistas. Por uma qualquer deformação de personalidade que a formação académica acentuou, não me apego muito a enredos e personagens: vou lá revisitar verbos, adjectivos e preposições, espreitar as engrenagens, e para voltar a passar devagarinho, palavra a palavra, por aquela descrição longuíssima de como o cuspo se adensa quando temos medo. O essencial é ir acampando em vários sítios e inventar engenhos para apanhar outros ângulos da paisagem. Mas, acima de tudo, ser terrorista e não respeitar a habitat natural das palavras. Pode-se observá-las de longe e fazer festinhas durante algum tempo, mas depois é construir barragens, espantá-las com estalidos e urros, arrancá-las à bruta, esquartejá-las e levá-las a dar uma volta até ao livro ao lado, enquanto se vai deixando para trás um trilho da porcaria que trouxemos de outras paragens.
Claro que o mais certo é daqui a uns anos fazê-lo sem dar por isso.