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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ou vem com botas cardadas, ou com pezinhos de lã...

Não é de agora que a ditadura do capitalismo financeiro se instalou no país. As novas medidas de austeridade vêm apenas confirmar o processo de radicalização social em curso, consumando uma das mais brutais transferências dos rendimentos do trabalho para o capital. Cortam-se os 13º e 14º meses de funcionários públicos e pensionistas; aumenta-se o horário de trabalho; aumenta-se o IVA; privatizam-se os transportes, a saúde, a água, etc. Simultaneamente à expropriação financeira dos trabalhadores e à corrosão da provisão pública assiste-se a uma reconfiguração do papel do Estado, que foi literalmente abocanhado por aqueles que estão a fazer desta crise a sua oportunidade de negócio. Os poucos que se sentem com direito a tudo, e defendem a todo o custo os seus lucros, mesmo que isso arruíne a vida a milhões, encarregaram-se de fazer do Estado o comité para a gestão dos seus assuntos particulares. Os agiotas, cujo programa político é simplesmente «ir mais além que a troika», passaram a fazer das medidas de brutalidade a norma. A excepção institui-se como a regra e a violência governamental confunde-se com a ordem jurídica, roubando nos salários e nas pensões,  alegando «autoridade legal» para o fazer. O fascismo é uma minhoca, não é? lá isso é....

sábado, 23 de julho de 2011

Portugal sem mais nada: os interesses nacionais (2)


Mas o interesse nacional, dizia, tem efeitos assinaláveis, como pudemos constatar no que já sobeja de 2011,  um verdadeiro ano da graça.
O Expresso, por exemplo, jornal de referência do liberalismo pátrio, já nos veio avisar que, apesar de defender "desde sempre, a liberdade de expressão e a liberdade de informar" e de repudiar "qualquer forma de censura ou pressão, seja ela legislativa, administrativa, política, económica ou cultural", não irá divulgar "notícias que mereciam ser publicadas em lugar de destaque" mas que sejam "eventualmente nocivas ao interesse nacional". O leitor um pouco mais informado - e decididamente mal-intencionado - recordaria com poucas saudades certos e determinados discursos, apostados em restituir o conforto das grandes certezas às almas dilaceradas pela dúvida e pelo negativismo do século.  Assim são as grandes certezas, quase sempre adversas às pequenas verdades. O resto, dizem-nos, é tão óbvio como aleatório: "O jornal reserva-se, como é óbvio, o direito de definir, caso a caso, a aplicação deste critério".
Mais recentemente veio  Pacheco Pereira, esse farol de pragmatismo político que tanto tem dado à pátria, escrever na Sábado acerca do imposto extraordinário sobre salários e pensões de reforma.  Trata-se ("sem dúvida") de uma "uma violação das promessas eleitorais do PSD e de toda a argumentação que foi usada contra o PS sobre a prioridade das receitas sobre as despesas e, caso se necessitassem mais receitas, de que o esforço seria nos impostos sobre o consumo e não sobre o rendimento". Mas não se trata de uma violação qualquer e, apesar de a democracia se ver por essa via ligeiramente viciada (não confundir com "asfixiada", o que seria completamente contrário ao património programático do PSD), acabou por predominar a mais importante das razões, que é, imagine-se só, o ...interesse nacional.
E ainda não é tudo, uma vez que o Bloco de Esquerda apresentou no Parlamento a proposta de criação de uma comissão para auditar a dívida portuguesa, expeditamente chumbada pela maioria governamental e pelos deputados do PS (com uma excepção) porque poderia "lançar à partida uma suspeição sobre a nossa dívida" (que é, como todos sabemos, absolutamente insuspeita), por ser "inoportuna" e “dar palco à especulação sobre a dívida” (especulação que, como se sabe, está longe de se abater sobre a "nossa dívida") ou, pior ainda, criar "uma comissão política com intenções políticas” (algo absolutamente indigno de um parlamento onde impere a preocupação com o interesse nacional) com o intuito de declarar parte da dívida "ilegítima" (e isto apesar de se conhecerem bem os seus pais e, bem assim, o conjunto da respectiva árvore genealógica). É do interesse nacional não fazer perguntas inoportunas, que possam perturbar os mercados e afugentar os investidores. É do interesse nacional pagar a tempo e horas, sem fazer muitas perguntas e dando graças ao Pai Natal por ainda haver um 12,5º mês. 
Bem se vê que isto do interesse nacional é matéria bem elástica, que dá ora à costa ora  ao largo, um pouco como o consumo, que ainda há pouco tempo era um sinal da modernização do país para agora se tornar uma das pragas do Egipto.
Razão tem a União de Leiria, que abandonou o estádio Magalhães Pessoa (a par das Amoreiras e de certa cassete VHS, uma das grandes obras com as quais Tomás Taveira serviu o interesse nacional), mais os seus "23 835 lugares, totalmente cobertos" para ir jogar para a Marinha Grande. O tempo que esta obra (emblemática de um grande desígnio nacional) levou a tornar-se um símbolo do despesismo (que tão contrário se revela ao interesse nacional), poderia deixar qualquer um zonzo. Razão acrescida para que o Expresso, "como é óbvio", não considere a relevância de noticiar semelhante decisão ou, muito menos, de investigar quem ao certo decidiu, participou e lucrou com tanto cimento aplicado num tão curto espaço e com tão discutível utilidade. Seria no mínimo inoportuno.
Talvez o Público + venha alterar este desconsolador cenário jornalístico. A menos que as seis grandes empresas do PSI-20 que o financiam lhe tenham colocado como horizonte inultrapassável a defesa do interesse nacional. Nesse caso, ainda nos arriscaremos a saber pelo Notícias da Amadora ou pelo Jornal do Barreiro que o litoral português foi vendido a um consórcio de investidores (de contornos por esclarecer), de maneira a reduzir o défice, sustentar a dívida, sossegar os mercados, evitar que os portugueses vivam acima das suas possibilidades e, naturalmente, defender o interesse nacional. O mesmo é dizer, Portugal sem mais nada.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Quem quiser assistir à crise, procure o seu lugar


Doris Salcido, Noviembre 6 y 7
 E o melhor é agarrarem-se bem.

Abutres

Num café aqui perto de casa estavam uns flyers da RE/MAX, que me fizeram perceber que tenho andado a ver coisa toda ao contrário. Parece que "Em tempo de crise aparecem as melhores oportunidades":


Fiz uma breve pesquisa na net e, ao lado da imagem em baixo, de uma senhora de sorriso largo e um ar de o-voto-é-secreto-mas-não-estou-cá-para-enganar-ninguém, pode ler-se que a Re/Max tem medidas anti-crise. Gosto sobretudo que estejam a ajudar os coitados dos bancos:


A Re/max comercializa imóveis penhorados

“Esta é mais uma medida anti-crise da RE/MAX. Por um lado, vem ajudar a banca a escoar os imóveis penhorados que prejudicam o balanço das instituições bancárias ao mesmo tempo que dá a oportunidade a novos interessados de acederam a um conjunto de imóveis com condições de venda mais competitivas, num momento em que o acesso ao crédito está mais condicionado”, refere Beatriz Rubio, presidente-executiva da RE/MAX Portugal.



quinta-feira, 23 de junho de 2011

Sell! Sell! Buy! Buy!

Revisão da matéria dada: a sabedoria dos mercados e como começou a crise. Pela dupla de cómicos ingleses Bird and Furtune:





terça-feira, 21 de junho de 2011

Sai uma bruta dose de Ingenuidade para a mesa do canto

 (Dois breves excertos de um texto longo sobre Jacques Rancière, com o título provisório "A improvisação dos incompetentes", que em breve verá a luz do dia)


A improvisação dos incompetentes

a sociedade tolera mal que se junte à liberdade que ela dá uma liberdade que se toma”
R. Barthes

 
Um dos truques da filosofia, porventura o truque da filosofia, é precisamente o de fabricar ingenuidades. Quando elas não existem, é preciso inventá-las, para que se passe então à verdadeira vocação filosófica: diagnosticar os ingénuos e desmascarar as suas ilusões. Neste processo, cura e doença andam de mãos dadas, pois sem a ingenuidade o saber arrisca-se ao pecado capital da redundância: precisa de ingénuos como a boca do pão, o professor de alunos ou o padre de prevaricadores. Seria no entanto um equívoco confinar esta questão ao saber académico e às suas formas de legitimação: ela atravessa e estria todo o nosso campo social e político. Desfiemos um pouco esta ideia: o ingénuo é o inocente, o idealista, o insensato; a ele se opõe o esclarecido, o realista, o razoável. Assim se reparte um mundo. Gostaria de sugerir que esta divisão, muitas vezes subtil, é mais importante – ou seja, mais eficaz – do que os grandes fossos civilizacionais que estamos habituados a reconhecer: entre a razão e a loucura, a verdade e o erro, ou o bem e o mal. E é mais eficaz porque o ingénuo – que tem muitos graus, do pobre tolo, passando pelo jovem impetuoso, até ao fanático irredutível – é apenas ainda ingénuo. Ou seja, não é cego, apenas não está bem a ver. Basta portanto que ouça os que já sabem, que aceite fazer o caminho que os levou até lá, que se disponha a ver aquilo que os outros já viram e que, está bem de ver, está lá para ser visto. Esta lógica aplica-se não só a indivíduos, mas a colectivos: as democracias jovens são ingénuas, como o eram – ou são - os povos ditos “primitivos”. A ingenuidade é assim, por outras palavras, uma forma de atraso. Daí o leve sorriso, a piscadela de olho cúmplice, paternalista, e os ares de simpatia que parecem recobrir o termo, mesmo quando aplicado aos elementos tidos como perigosos, como o sejam os militantes cujas causas e ideiais, dizem-nos os esclarecidos, os impedem de ver o mundo tal como ele é. São por isso mesmo moeda corrente entre os fazedores de opinião histórias instrutivas acerca de como se deixaram para trás as doces, mas nem por isso menos nefastas, ilusões de juventude.


quinta-feira, 16 de junho de 2011

Bloom

Hoje é feriado na Irlanda. É o bloomsday, que assinala as deambulações por Dublin, a 16 de Junho de 1904, de Leopold Bloom, a personagem de Ulysses, de James Joyce. Segundo consta, Joyce terá escolhido o 16 de Junho para o seu romance por ter sido o dia em que caminhou pela primeira vez com a sua futura companheira. Na verdade, e segundo alegou o próprio, foi o dia em que fizeram amor pela primeira vez. Uma ideia que surge geralmente associada a este feriado é a de que se trata do único no mundo que tem um livro como motivo, à excepção dos que se relacionam com a Bíblia. O que está longe de ser rigoroso, desde logo porque a Bíblia não é um livro. Mas, independentemente disso, quem o afirma talvez não saiba que há um dia em Portugal, o 10 de Junho, que também celebra um livro. É certo que o que é dito é que o que é celebrado é um poeta, mas, de facto, o Camões do 10 de Junho é o eclipse da poesia, é uma fórmula vazia que designa uma abstracção, o Livro (o que não deixará de ser injusto para o Camões, mas isso é outra história).

Não haverá muitos aspectos em que o Ulysses (a não ser que fosse o seu antepassado remoto...) e Os Lusíadas, ou mesmo Joyce e Camões, possam sequer ser postos em comparação. Mas se os relacionarmos com os feriados que os assinalam, talvez não seja descabido sublinhar algumas diferenças com base em critérios comuns. Assim de repente, em três planos:
1. Os evocados - o 10 de Junho comemora os heróis, os melhores de entre os melhores, os que em nome do totem derrotam os monstros mais terríveis e que, ainda que sendo também monstros, são heróis-monstros, engrandecem-se no sangue alheio em nome da vitalidade do espírito; o bloomsday comemora as pessoas comuns, os seus pequenos nadas, o seu quotidiano nem monstruoso nem heróico e, seminalmente, o amor;
2. Os evocadores - o 10 de Junho é comemorado pela interpretação dos chefes, dos dignos sucessores dos heróis-monstros, cuja palavra mobiliza o totem; o bloomsday é comemorado pelos evocados;
3. A forma da evocação - o 10 de Junho é comemorado numa parada militar, com a tribuna, os bravos e o totem; o bloomsday é comemorado nas ruas, em festa, lendo Joyce ao ar livre.

Claro que poderá sempre alguém dizer que uma outra diferença, em 2011, é que enquanto os portugueses enfrentam a crise agarrados às suas raízes (e às enxadas do 'regresso à lavoura' da elegia de Cavaco), os irlandeses perdem um dia a passear e a ler romances. Mas, nesse caso, seria sempre possível responder que no quotidiano que o bloomsday assinala também há raízes. Só que são raízes que nascem e morrem, se reproduzem e se anulam, numa imprevisibilidade irredutível ao totem.

Talvez, então, uma boa hipótese de resposta à crise se possa resumir numa fórmula do género:
quotidiano + Joyce - totem + x = bloom

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A crise da representação

Escrevi, já há dois anos, um curto texto para servir de suporte a uma intervenção num debate realizado aqui e co-organizado pela Unipop. Estava perdido nas catacumbas do meu PC(Reconstruído), até que debates e eventos recentes me fizeram relembrá-lo (por exemplo, aqui, aqui ou aqui). 
Haveria ainda isto, mas a confusão evidente entre polícia e política não pede comentários. Fernanda Câncio pode por isso ficar em paz, a discutir o seu conceito de democracia com o Comandante Metropolitano da PSP (estou certo de que vão os dois divertir-se imenso).
Deixo um lamiré e quem estiver interessado pode continuar por ali abaixo: 
A actual crise da representação política – traduzida nos números crescentes de abstenção e no descontentamento relativamente à condução dos negócios públicos e ao funcionamento das instituições – é também uma crise das formas institucionais de resistência e conflito que contribuíram para moldar a sociedade em que vivemos, lá onde o espaço para a contratualização do conflito se vê reduzido pela crise da acumulação capitalista.

Muitos autores lêem nesse fenómeno uma crise das próprias condições de participação e de acção política. Esta apresentação teve o modesto propósito de questionar o vínculo entre os dois fenómenos. No esgotamento histórico da política baseada no dispositivo transcendental da soberania e na sua legitimação através da metafísica da representação, penso existir mais do que um elemento a saudar. A hipótese, plausível e realista, de que outras formas de política estejam contidas nesse esgotamento confronta-nos com o desafio de as reconhecer já em acto, de forma fragmentária, em vários sítios do globo e noutras tantas situações históricas ao longo das últimas décadas. A hipótese de uma configuração radical da democracia – de uma democracia que não se consome mas antes se exerce –, baseada numa subjectivação sem sujeição, na apropriação consciente do tempo e das condições de vida pelos indivíduos, abre horizontes que ultrapassam um simples aprofundamento da participação ou rejuvenescimento das instituições. Uma outra política pressupõe uma outra forma de vida. Superar a crise da representação exige que superemos a própria representação, que deixemos de assistir ao jogo e comecemos a jogar.