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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Vai trabalhar vagabundo!

Todo o filho-de-deus colabora com todo o filho-de-deus na tarefa comum de aperfeiçoar-se e especializar-se em fazer ou não deixar fazer, a fim de impedir uma vida despreocupada. (...)
Todo o filho-de-deus acha que fazer é um sacrifício e uma devoção, mas também um dever, é isto que todo o filho-de-deus acha; por isso todo o filho-de-deus especializado em fazer chama a si o sacrifício e a devoção e o dever de fazer e: ao filho-de-deus especializado em não deixar fazer, dá o encargo de não permitir que sejam rejeitados o seu sacrifício, a sua devoção e o seu cumprimento do dever (...)
Ainda quando está liberto de trabalhos, o filho-de-deus preocupa-se com o que os outros estão a poder fazer na sua ausência; o filho-de-deus preocupa-se com o que os outros fazem na sua presença e na sua ausência, e até com o que os outros não fazem mas podiam fazer. ‘Vai trabalhar, malandro’, diz ele, e ainda: ‘Como é que isto pode ir para a frente sem se fazer nada?

Alberto Pimenta, Discurso sobre o filho-de-deus ao qual se segue o discurso sobre o filho-da-puta



So tonight gotta leave that nine to five upon the shelf
And just enjoy yourself
Groove, let the madness in the music get to you
Life ain't so bad at all
If you live it off the wall

segunda-feira, 27 de junho de 2011

I Won't Work

 Como oportunamente relembra a Raquel, os Wobblies foram fundados há 106 anos. Aqui fica um excerto de um texto em inglês, escrito originalmente em italiano por Sergio Bologna, que sugere um exercício comparativo entre a tradição das lutas operárias norte-americanas e a das suas congéneres europeias :
In 1905, at the peak of the struggle, while the Soviets were coming into being in Russia, in the USA the International Workers of the World (IWW) was formed; the most radical proletarian organisation ever in the USA, the only revolutionary class organisation before the rise of the Afro-American movement. Today there is much to be said and learned from the IWW. Although many of its militants were anarchists and anarcho-syndicalists who had migrated to the US from Eastern and Western Europe, the IWW cannot merely be written off as the American equivalent of French anarcho-syndicalism.
What was there in the IWW that is so extraordinarily modern? Although it was based on an old class nucleus, the Western Federation of Miners, the merit of the IWW was that it attempted to organise the American proletariat in terms of its intrinsic characteristics. It was primarily an immigrant proletariat, and therefore a mixture of ethnic groups which could only be organised in a certain way. Secondly, it was a mobile proletariat, a fact which very much militated against identification with any particular job or skill, and which also militated against workers developing ties to individual factories (even if only to take them over).
 The IWW made the notion of the social factory a concrete reality, and it built on the extraordinary level of communication and coordination possible within the struggles of a mobile workforce. The IWW succeeded in creating an absolutely original type of agitator: not the mole digging for decades within the single factory or proletarian neighbourhood, but the type of agitator who swims within the stream of proletarian struggles, who moves from one end to the other of the enormous American continent and who rides the seismic wave of the struggle, overcoming national boundaries and sailing the oceans before organising conventions to found sister organisations. The Wobblies' concern with transportation workers and longshoremen, their constant determination to strike at capital as an international market, their intuitive understanding of the mobile proletariat - employed today, unemployed tomorrow - as a virus of social insubordination, as the agent of the "social wildcat": all these things make the IWW a class organisation which anticipated present-day forms of struggle, and was completely independent of the tradition of the Second and the Third Internationals. The IWW is the direct link from Marx's First International to the post-communist era.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Soltam-se os parafusos da máquina

  Como se irá tornando dolorosamente óbvio, “os outros” dizem quase sempre coisas mais interessantes do que eu. Felizmente, entre os que andam por aí a comer sandes de panado, a tirar bolinhas de cotão do umbigo e a pagar IRS e aqueles que já deram o triste pio, há muitos. Pelo que a maior parte dos dias o melhor mesmo é passar-lhes a palavra. Neste caso, escreve o António Guerreiro, no “Ao pé da letra” (no Expresso, of all places) do último Sábado, glosando o famoso "nãããã" do Bartleby de Melville.
"o impasse do presente, a que corres­ponde o fechamento da esfera da repre­sentação política, determina uma atitu­de que poderia ser assim definida: é contra o voto que se continua a votar. Nos movimentos dos jovens e dos 'pre­cários', dificilmente encontramos uma linguagem que aponte para uma nova ordem. E é preciso perceber que os limites da acção política são os limites da linguagem. Desde logo, o termo 'precá­rio' significa uma definição em relação à esfera do trabalho, uma reverência à ordem do mundo que chegou ao fim, mas a cuja salvação se entrega hoje um exército de alcance universal. Como o homeostato de Ashby, essa máquina que funciona apenas para se alimentar a si própria, assim é o sistema parado­xal de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, de uma multidão de supranumerários que representa um perigo enorme: o de sabotar a máquina, deslumbrada com o seu próprio meca­nismo. Na mobilização geral pelo traba­lho, reforça-se uma evidência que seria, pelo contrário, necessário abolir: a de que não há outra maneira de existir senão trabalhando. De tal modo que trabalhar, hoje, corresponde menos a uma necessidade económica de produ­zir mercadorias do que a uma necessi­dade política de produzir produtores e consumidores. A produção tornou-se sem objeto. A figura de Bartleby, o escrivão de Melville que respondia às ordens para trabalhar com a fórmula "I would prefer not to", poderia servir de inspiração para desativar o sistema laborioso que suscita tanta mobilização: dos que o defendem para que nada se passe e dos que o atacam por ele se ter tornado tão exclusivo. E se, em vez da mobilização total com a qual se glorifi­ca o trabalhador, que foi uma figura tanto do fascismo como do comunismo, o novo exército de não-trabalhadores recusasse assumir-se como multidão de desempregados e em vez de reivindicar o impossível gritasse em todas as pra­ças "I would prefer not to"?"
(PS: Fui roubar isto aqui). E agora vou mas é trabalhar.