E subitamente, sem que
nada o fizesse prever, uma polémica
historiográfica
no espaço público, com direito a não poucas acusações, insinuações e
insultos, para além de um moderníssimo apelo à censura.
Comecemos pela resposta
de Rui Ramos a Manuel Loff, que transfigura notoriamente as acusações que lhe
são feitas, de maneira a convertê-las numa caricatura para a qual possuía já,
arquivada num qualquer baú, uma resposta tão rápida quanto insatisfatória.
Infelizmente, os debates dignos desse nome não costumam travar-se contra as
afirmações que se desejaria terem sido proferidas mas não foram. Tudo seria
evidentemente mais fácil se o trabalho de cada um se confrontasse apenas com
argumentos superficiais e avaliações primárias.
É um facto, desses que
os historiadores «objectivos» não dispensam, que ninguém acusou Rui Ramos de
ser fascista, mas antes de se empenhar no sentido de negar esse qualificativo
ao Estado Novo e a Salazar. É um facto que Loff acusa Rui Ramos de apresentar o
Estado Novo como uma «espécie» de monarquia constitucional. E é um facto que
Rui Ramos lhe chama caluniador por este o ter acusado de afirmar que o Estado
Novo era um regime «absolutamente» idêntico à monarquia constitucional.
A
escolha de palavras é aqui todo um programa, uma vez que o rigor no seu uso é a
própria matéria de que se faz o ofício de historiador e, não se negando a Rui
Ramos capacidades para o desempenhar, apenas se pode concluir que essa confusão
é na verdade uma estratégia argumentativa. Uma «espécie de» não significa –
agora como no tempo em que este debate podia levar pessoas à prisão -
«absolutamente idêntico a» e neste domínio, como noutros, o diabo habita nos
pormenores, pelo que a subtileza não é um aspecto secundário.
O exercício poderia prosseguir, mas teríamos sobretudo mais do mesmo e uma conclusão acabaria por se impor: Rui Ramos procurou furtar o seu trabalho ao debate público e convocar em seu auxílio as numerosas penas da opinião conservadora contra os rigores do «antifascismo». E é essa opinião conservadora que interessa discutir. Ela diz-nos muito mais acerca do século XX em Portugal - o lugar inóspito de onde provêm - do que os escritos de Rui Ramos sobre o assunto.
A facilidade com que emergiram no espaço público termos como «normalização»,«serenidade académica» ou «consensos mínimos», a forma como se denunciou uma «cultura de guerra civil» ou «algo de doentio e fanático» a propósito dos artigos de Loff, é já um sinal de que se tocou num tema de óbvias ressonâncias conflituais. A dimensão política desta discussão parece ser incontornável. Não será esse um dos menores méritos de quem se pronunciou criticamente acerca do trabalho coordenado por Rui Ramos.