domingo, 8 de julho de 2012

O Sistema


(o meu artigo no i da última quinta-feira)

Já foi assinalada a triste sina de um governo que, fazendo bandeira da crítica ao facilitismo na educação, acaba por nos oferecer o percurso educativo do seu homem forte, Miguel Relvas, como um testemunho exemplar do que é facilitismo. Dito isto, e apesar de por estas bandas bem podermos com o mal de Relvas, convém deixar claro que o homem é agora vítima de um sistema que, apesar de alimentado por figuras como ele próprio, deve ser objecto da nossa crítica por inteiro e não fulanizadamente.

Que sistema é este? É um sistema político cujo funcionamento está fundado na ideia de que para o mundo não desabar será necessário dividirmo-nos entre uma elite que governa e uma massa que deve ser governada. É um sistema que hoje defendendo que essa elite seja apurada democraticamente, e proclamando o direito de todos a serem não apenas eleitores mas também eleitos, rapidamente trai este princípio elementar sobrepondo-lhe a ideia de que nem todos têm as competências intelectuais necessárias ao exercício da governação. Um sistema que, em suma, acaba por defender que só os alegadamente mais habilitados deverão ser escolhidos para governantes.

É no quadro deste sistema que Relvas, apesar das inegáveis qualidades pastorais evidenciadas ao longo da sua carreira político-partidária, pressentiu que só depois de ter o carimbo de doutor na testa é que estaria plenamente habilitado a fazer carreira governativa. E aqui é importante sublinhar que a universidade surge em palco como uma poderosa autoridade que legitima a distinção entre os mais e os menos dotados da capacidade de serem competentes, ou, na nova língua empresarial-académica, da capacidade de “excelência”. Com efeito, é sabido que em Portugal a posse de um curso superior é um dos mecanismos de distinção mais prestigiados. O poder da instituição universitária (mas poderíamos também alargar às instituições escolares em geral) enquanto entidade legitimadora da hierarquização das inteligências, que define que ali vai um homem inteligente, e que acolá ficou um indivíduo incapaz, é desmesurado. Mais importante ainda: precisamos de começar a questionar o princípio de que são os mais inteligentes que devem governar; e, sobretudo, devemos começar a questionar o que é isso de inteligência, de competência, de excelência.

O problema, insisto, não é o diploma de Relvas, tal como o problema não era o diploma de Sócrates. Infelizmente, o culto da formação escolar e universitária como prova de superior inteligência, ou da própria ideia de que a inteligência é coisa para ser medida e quantificada para depois se estabelecer a lista dos mais e dos menos desta vida, não é apenas obra dos percursos sinuosos dos homens mais odiados do momento. O culto está a tal ponto espalhado que se insinua em quase toda a vida política, mesmo entre aqueles de cujas boas intenções não duvidaremos. É por exemplo pouco entusiasmante verificar que, na mesma semana em que assistimos a mais este caso Relvas, tenha proliferado um sentimento de indignação a propósito do baixíssimo ordenado pago a um grupo de enfermeiros, como se por serem enfermeiros tivessem direito a um salário mais elevado do que um trolha. Entendamo-nos: 4€ à hora é de facto um salário miserável e merece a indignação generalizada mas esta situação não é mais revoltante por se tratar do salário de um diplomado do que de um não-diplomado.  

terça-feira, 26 de junho de 2012

Da invenção do proletariado


"Religados e reanimados no monstro estão os membros daqueles – os 'pobres' – que a quebra das relações feudais empurrou para a vagabundagem, a pobreza e a morte. Apenas a ciência moderna (…) lhes pode oferecer um futuro. Cose-os de novo, molda-os de acordo com a sua vontade e, por fim, dá-lhes vida. Mas, no instante em que o monstro abre os olhos, o seu criador encolhe-se, horrorizado.” (Franco Moretti, aqui ) Deu vida a algo que tem 'vida própria', por mais preso que esteja na relação com o seu 'dono'. E tanto mais será o horror quando, como observou o meu amigo Ben Dawson, a quem devo esta referência, o monstro começa a vaguear, porque está sem trabalho.

domingo, 24 de junho de 2012

Contributo menor para o futuro da esquerda

(o meu artigo no i da última quinta-feira)


De há uns tempos a esta parte, os debates sobre o futuro da esquerda em Portugal têm sido alimentados por alguns contributos que afirmam ter chegado o tempo da unidade. Estes contributos vão de rigorosos exercícios de cálculo eleitoral a comoventes desabafos de alma, mas eu queria colocar aqui três entraves à famigerada unidade.
O primeiro entrave tem que ver com uma divisão entre, de um lado, quem coloca mais empenho na reivindicação da democracia do que na crítica do capitalismo e, do outro, quem mais se dedica a combater o capitalismo e menos preza a luta pela democracia. Esta divergência entre quem acha que a esquerda é sobretudo nome de uma luta pela liberdade política e a quem acha que a esquerda é sobretudo uma luta pela igualdade económica não se resolve através da busca de um mínimo denominador comum, como alguns pretendem, mas maximizando: precisamos de uma esquerda que assuma que a sua luta deve ser simultaneamente uma luta radical pela igualdade económica e um combate sem tréguas pela liberdade política. Precisamos de uma esquerda ciente de que não há combate ao capitalismo que não seja luta pela democracia e vice-versa. Um exemplo, entre outros possíveis, de uma tal esquerda estaria numa política que travasse os combates pela liberdade de expressão não apenas como uma luta por direitos políticos ou pela liberdade de imprensa, mas também como uma luta pelo direito de todos os trabalhadores a não passarem a maior parte do dia e dos dias a fazerem o que não querem e sob o comando de outrem.
O segundo entrave à unidade tem que ver com as formas de poder que as esquerdas preconizam e praticam. Aqui há também uma divergência fundamental. No actual mundo das palavras, à direita como à esquerda, um dos casos de maior sucesso é provavelmente o da chamada elite, termo que circula com o maior à vontade por entre peças jornalísticas e discursos parlamentares, saltando de livros de História para o verbo de politólogos. Colada à boca de quase todos, a palavra não é, porém, usada de um modo sempre idêntico. Há quem a utilize de maneira elogiosa e quem dela faça uso com intenções críticas. E entre estes últimos cava-se uma distância que não é menor entre, por um lado, os críticos da elite que a depreciam porque entendem que é necessário apurarmos uma nova elite que substitua a velha elite e, por outro, os que a rejeitam porque simplesmente acreditam que um compromisso radical com a democracia deve simplesmente riscar a palavra do seu dicionário. Há uma bifurcação, sem ponto de convergência à vista, entre quem entende que a esquerda deverá ser sobretudo nome de um projecto que visa derrubar governos de direita e substituí-los por governos de esquerda e quem julga que a esquerda é antes de mais o nome de um projecto de combate à elitização da política, isto é, um projecto de crítica democrática da democracia representativa. Eu estou com estes últimos – nenhum combate político à esquerda pode continuar a ser travado com recurso às velhas fórmulas hierarquizantes em que uns dirigem e outros são dirigidos, uns planeiam e outros são planeados, uns pensam e outros são pensados; dirigentes revolucionários ao leme da vanguarda partidária e economistas reformistas que analisam a sociedade do alto do Estado devem ser atirados para o caixote de lixo da história.
Finalmente, o terceiro entrave é a obsessão com as frases claras e o estilo categórico, que podem parecer úteis para combatermos a direita, mas que a médio prazo pagaremos caro. Isto é, não pesemos excessivamente as nossas preocupações e as nossas propostas, o que naturalmente abrange as que fazem parte deste meu contributo... Não percamos muito tempo a demarcar o que está dentro e o que está fora dos nossos territórios. E isto não é só válido para os partidos ou para os partidos que são apodados de ortodoxos. Aplica-se seguramente ao manifestante anti-autoritário que ao atirar ovos à sede de um partido de esquerda se limitou a erguer as paredes do seu próprio partido e a fazer-se capataz do que deveria ser indomável, o anarquismo. E aplica-se também aos que em nome da unidade dos partidos de esquerda decidem simplesmente tecer armas contra todos os sectarismos de todos os partidos de esquerda, como se a sua resposta à fragmentação partidária da esquerda fosse simplesmente criarem mais um fragmento que, por lhe chamarem unidade, é suposto não tomarmos como mais um fragmento. Infelizmente, fazer bandeira da heterodoxia é caminho rápido para chegar a ortodoxo.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Anos é forti - Santa Filomena, Amadora



Hoje, quinta feira 21 de Junho, pelas 10h moradores e moradoras do Bairro de Santa Filomena (Amadora) dirigiram-se pacificamente à Câmara Municipal de Amadora para entregar uma carta ao cuidado do Presidente da Câmara Municipal da Amadora. Chegamos lá, tiramos a senha para ser entendidos/as e depois de ler e assinarmos a carta o nosso objectivo era entregá-la aos/às funcionários/as da Câmara para que ela fosse remetida ao Presidente. Mal entramos, completamente pacificamente, como qualquer cidadão ou cidadã deve poder entrar  na  sua câmara municipal e ser atendido/a, foi incompreensivelmente chamada a policia municipal que veio em massa.
Somente estávamos à espera da nossa vez para entregar a carta assinada por nós. Ainda assim, tendo em conta o contigente policial, à medida que tinhamos assinado a carta , fomos saindo do edifício e a polícia, depois de ter feito um cordão policial , hostilizou os moradores e moradoras e perante o pedido de calma à polícia por parte de uma pessoa que integra a Plataforma pelo Direito à Habitação , explicando que somente queríamos entregar uma carta, um agente policial agrediu-a violentemente, estando ela neste momento ainda no hospital. 
A polícia agrediu igualmente um repórter que estava a documentar e retiraram-lhe o cartão de memoria que continha mais fotos e video das agressões. Depois disso acontecer os/as moradores/as manifestaram-se em frente à Camara aguardando que um morador que foi detido fosse libertado, que a colega que foi agredida fosse atendida pelo INEM e levada para o hospital e que nos deixassem entregar a Carta endereçada ao presidente da Câmara. 
A actuação da policia municipal foi completamente injustifícável e viola os nossos mais elementares direitos.
Enviamos em anexo as únicas fotos que foram tiradas por um morador desde seu telemóvel (foto em anexo), mostrando a agressão , bem como a carta que foi entregue.

 Os/as moradores/as do Bairro de Santa Filomena
Plataforma pelo Direito à Habitação


Pode-se ler abaixo a carta que os moradores desejavam entregar na C.M.A.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O processo da Fontinha desmontado como se fosse um esquentador velho - "Proselitismo na via da educação" e "internacionalismo alarmante"



Durante o despejo do Espaço Colectivo Autogestionado (Es.Col.A) do Alto da Fontinha, no Porto, no passado dia 19 de Abril, dois dos detidos, António Pedro Sousa e Ricardo Ribeiro, foram acusados de crime de injúria e crime de resistência e coacção sobre funcionário. Em julgamento sumário, no dia 2 de Maio, foram ambos condenados a pena de prisão de três meses, substituída por multa mais pagamento da taxa de justiça, num total de €954 cada, segundo sentença lida a 10 de Maio.
Vimos por este meio enviar, em anexo, cópia do Recurso da sentença - que deu entrada no Tribunal de Pequena Instância Criminal do Porto, 3ª Secção, no passado dia 1 de Junho - de forma a que este seja divulgado e ponha a nu a farsa que foi este julgamento nitidamente político. Junta-se também em anexo cópia dos factos alegadamente provados em Tribunal, contestados no Recurso. Refira-se que o documento referente ao recurso é antecedido de um índice, com links e bookmarks para facilitar o manuseamento.
Denunciamos a violação do processo equitativo, violação do princípio da legalidade, ausência do respeito devido às instituições vigentes, plausibilidade da ausência de defesa efectiva, de onde ressalvamos:
O facto da Procuradora do Ministério Público (MP), que representa a fiscalização da Lei, ter nas suas alegações finais tecido considerações na primeira pessoa do singular sobre as convicções políticas dos arguidos, acusando-nos de "proselitismo na via da educação" e de um internacionalismo alarmante. Chegando ao cúmulo de ter dito que "se não queremos suportar situações que não nos agradam, vivemos isolados na Serra da Lousã". E o facto da Procuradora do MP e do Juiz de Direito do Tribunal de Pequena Instância Criminal do Porto - 3ª Secção terem, com toda a evidência e à vontade, conduzido os testemunhos de acusação e ignorado os de defesa.
E fica a dúvida, uma vez que nada ficou provado, o que é que afinal sustenta a acusação?

Recurso Processo Despejo Fontinha Factos Pretensamente Provados Fontinha

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A pedra de roseta





Durante milhares de anos a escrita dos antigos egípcios permaneceu indecifrável para os seus estudiosos. «Hieróglifo» era um sinónimo de gatafunho ilegível. Até que um soldado de Napoleão encontrou, nas imediações da cidade de Roseta (Rashid), no delta do Nilo, uma estela de pedra trilingue com o mesmo texto escrito em grego antigo (que era bem conhecido), demótico (uma variante escrita mais recente do egípcio) e com hieroglifos. Passou a ser possível a partir daí decifrar os textos deixados por uma das mais antigas civilizações do mundo.
Helena Roseta acaba de nos presentear, por um desses acasos em que a história é fértil, com algo semelhante. Durante os últimos anos pareceu ser-lhe possível conjugar tudo e um par de botas:  discursos de apelo à cidadania e à participação cidadã com a mais pragmática e cínica participação nos mecanismos de governação; apologias da rua e do espaço público com programas de reabilitação urbana que expulsam imigantes dos espaços que estes utilizam há décadas; retóricas da esquerda florida e colorida com indisponibilidade para debater o que ponha em causa alguns dos mais óbvios mecanismos de poder que estruturam a vida social. E eis que agora tudo se decifra e se torna claro, clarinho, claríssimo, clarão. Os hieróglifos tornaram-se legíveis. Roseta gosta de fazer poesia com floreados de esquerda e política autárquica com bastões de polícia. A sua política de habitação tem como base o desalojo e a existência de edifícios limpos e devolutos.
É dar uma vista de olhos a este despacho serôdio e fica-se com uma ideia do que vai naquela cabecinha. Um prédio vazio desde 2005. Que foi ocupado em 2010 e, uma vez desalojado, permaneceu vazio com a fechadura lá deixada pelos ocupantes. Que tinha as janelas abertas, o interior cheio de lixo, entulho e merda de pombo, a deteriorar-se. E eis que afinal há mil e um planos para ele, estava tudo pronto a arrancar e só estes malvados ocupantes o vieram impedir. Helena Roseta tem o supremo cinismo de anexar ao seu despacho fotografias tiradas pelos próprios ocupantes para mostrar o estado de deterioração em que se encontrava o edifício... à data da ocupação. Mas afinal, com tantos e tão bons projectos, os serviços da CML não dispunham das suas próprias imagens do interior, planos detalhados, um inventário, nada? Devemos realmente concluir que só a ocupação do imóvel gerou interesse por esse imóvel? Que pretende agora a CML  «garantir o direito à habitação a famílias carenciadas» - 2150 a aguardar desde Setembro de 2011(!)- após deixar o edifício ao abandono durante anos e anos? Que estava já agendada uma vistoria para Maio de 2012 e que só a ocupação o impediu? A desonestidade é tanta que Roseta se dá ao luxo de invocar o problema com a canalização que motivou infiltrações no espaço da ILGA quando esse problema foi resolvido por iniciativa dos ocupantes no espaço de dois dias.
Finalmente, vale a pena dar uma vista de olhos ao despacho de resposta do juiz à providência cautelar interposta pelos ocupantes. Traduzindo do juridiquês: Helena Roseta, muito preocupada com os fogos devolutos da CML ocupados por lisboetas, alterou o Regulamento de desocupações de fogos municipais, reduzindo de 90 para 10 dias úteis o prazo de abandono dos mesmos após notificação camarária. Simplesmente, a competência para o fazer não pertence ao executivo camarário mas à assembleia municipal, que redigiu e aprovou o regulamento anteriormente em vigor. Sendo a alínea do regulamento invocada na notificação camarária inaplicável, porque sem qualquer validade jurídica, não poderia aquela notificação ser outra coisa que não nula.
Ora o juiz que olhou para o caso entendeu que não era necessário deferir o decretamento provisório da suspensão dos actos administrativos por ser aquela figura jurídica aplicável apenas no caso de existir uma situação urgente de ameaça irreversível aos direitos do requerente, o que não lhe pareceu ser o caso, uma vez que o desalojo pode ser revertido e a casa devolvida aos ocupantes. Resolveu então admitir a providência cautelar, suspendendo assim o acto administrativo em causa (ou seja, a notificação de despejo assinada por Roseta) e intimando as duas partes a apresentar provas das suas alegações. Entende Roseta no seu despacho que as suas próprias convicções, argumentos e alegações são prova bastante de que é do interesse público o desalojo de S. Lázaro, mesmo sem respeitar o Regulamento de desocupações de fogos municipais em vigor, que não é aquele que ela pretenderia, mas aquele que efectivamente seguiu as vias legais. E ordena por isso um despejo absolutamente ilegal, que não o é menos por ser aplicado por agentes da Polícia Municipal e pela PSP, fardados, equipados e armados, cheios de vontade de bater, como se pode ver pelos vídeos acima expostos. 
Helena Roseta está disposta a tudo para garantir que as ocupações selvagens de fogos devolutos municipais não passam por cima dos seus desígnios de caridadezinha para com as «famílias carenciadas». Daqui a pouco há eleições e não há nada como umas imagens de distribuição de casas a gente humilde para lhe dar aquele pedigree de «esquerda moderna e democrática com preocupações sociais» que é o alfa e o ómega da sua carreira política. Helena Roseta enganou-se e o seu engano vai-lhe custar caro. A sua carreira política acabou aqui, numa manhã quente de Maio, em que às suas ordens um bando de gente fardada despejou o número 94 da Rua de S. Lázaro, agredindo e detendo quem se opôs a uma medida ilegal. A vida, essa, vai continuar. Se pensam que é assim que nos vencem  pensem novamente. Isto ainda é só o início. 

Helena Roseta


Deixemos em paz, por um momento, os polícias que estão a conduzir a desocupação de São Lázaro. 

O centro da questão é Helena Roseta, primeiro, e António Costa, depois. 

Não esperava que Roseta promovesse ocupações. Ou sequer que fizesse alguma coisa de esquerda. Em relação aos eleitos, eu sou assim, espero pouco das pessoas, que é para depois não me desiludir à grande. 

Mas esperava que Roseta não fosse mais zelosa do que os tribunais e que não ultrapassasse a lei pela direita. 

Roseta não precisava de ter feito nada de esquerda, nada de democrático, nada de cidadão. Bastava-lhe ter cumprido a lei como qualquer outro animal. 

E também ajudava ter vergonha na fronha. Que lhe dêem a escutar as críticas que fez a Rui Rio pela desocupação da Fontinha. Que lhe mostrem imagens da senhora vereadora que procurou assumir protagonismo na Assembleia Popular do Rossio.

Roseta era do PSD, passou para o PS, passou para a ala esquerda do PS, criou um movimento de cidadãos à esquerda do espaço partidário. 

E de há uns tempos para cá iniciou o caminho de volta, embora agora, parece, com uma velocidade que não se viu antes, pois num par de anos: voltou para o espaço partidário que antes classificara como decadente; voltou para uma lista do PS sob o comando de António Costa; e agora, finalmente, ultrapassou sentenças judiciais pela direita. 

Com argumentos que fazem dela a Christine Lagarde portuguesa. (Diz Roseta que está a desocupar uma ocupação ilegalmente porque há pessoas mais carenciadas que efectivamente necessitam de casa ao contrário dos ocupas). 

Só não lhe chamo de vendida porque nunca comprei toda aquela gelatinice.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Com o maior cuidado possível


 
                                      Stress na Morais Soares por lxgorila
Em resposta ao vídeo que anda a circular pela internet, onde se vê um pai com uma criança ao colo a ser detido por 10 agentes da PSP, entendeu aquela corporação emitir este comunicado:
Um elemento policial em serviço remunerado na Rua Morais Soares em Lisboa, intercepta um cidadão a exercer condução fazendo uso de telemóvel. Durante a abordagem, apercebe-se de que o cidadão se encontra acompanhado por um filho menor (de colo) e por um cunhado. O condutor assume uma postura agressiva e injuria o polícia. O Elemento policial, em função da situação solicita reforço para o local. Já na presença do reforço, o elemento policial interveniente informa o condutor de que a sua conduta constitui ilícito criminal pelo que deveria cessar a sua conduta. Porque aquele a manteve e continuou a injuriar o polícia, este deu-lhe voz de detenção. Apercebendo-se disso, o condutor retirou o filho do colo do cunhado e serviu-se da mesmo como “escudo” para evitar a consumação da detenção. Aquilo a que se assiste no filme é exactamente ao momento em que, com o maior cuidado possível, os elemento policiais separaram e retiram o cunhado, asseguram a integridade física da criança, colocando-a temporariamente sob a atenção e cuidado de uma agente feminina, e depois procede à manietação do condutor, agora detido, sem ser possível verificar qualquer imagem de violência.
 
É tudo tão ostensivamente falso que uma pessoa até começa a dar credibilidade às notícias do Correio da Manhã. A ver se percebemos bem.
O cidadão injuria o agente, que sente a necessidade de chamar reforços, e depois o cidadão fica tranquilamente a aguardar a chegada desses reforços, momento em que o agente “informa o condutor de que a sua conduta constitui ilícito criminal pelo que deveria cessar a sua conduta” (quanta ternura…) e, na presença de 10 agentes da PSP, o cidadão continua a injuriá-lo, usando depois o filho como escudo? Isto tudo enquanto as pessoas que passam assistem chocadas e gritam com a polícia?
É mesmo esta história, cheia de porcos com asas e galinhas com dentes, que nos querem fazer engolir como se fosse plausível? Queremos mentiras novas!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Demasiado bem para o nosso bem

 Que bem que se está em Portugal! Agora a sério. Que clima! Que bem que se come! Que bom e barato é o vinho! Que bem escrevem os nossos grandes escritores! Que prestáveis são as farmácias! Que belos filmes passam na televisão! Que simpáticas as pessoas! Os benefícios que a CEE tem trazido! A quantidade de queijos franceses que já se podem comprar nos supermercados! A desfaçatez com que se entra em Paris ou em Londres! A rapidez com que agora vêm os filmes, os CD e os jornais estrangeiros! A estabilidade do escudo! Estou a falar a sério! Os concertos! A beleza da nossa terra! As praias por descobrir! A facilidade com que agora se compra um monte no Alentejo! Não, de facto, desculpem mas começa a ser inegável. É que não se está nada mal em Portugal. [...]
Perfeitos? Nós? Não, mas a verdade é que já fomos mais imperfeitos, sim senhor. Desculpem Iá. Já passamos mais fominha. Já aguentamos com mais barafunda. Já nos metemos em maiores confusões. Já foi muito mais difícil trocar notas de quinhentos paus por libras esterlinas. O leite já escasseou mais. O trânsito já foi mais interrompido por manifestantes. Até os ministros já foram mais incompetentes e desonestos que hoje são! Parece impossível, mas é verdade. Portugal arrisca-se a tornar-se um pais como os outros, atingindo o bem-estar e o tédio das suas congéneres europeias. Já repararam como hoje é raro aparecer uma noticia sobre Portugal na imprensa estrangeira? Não havendo um mínimo de caos, de crise, de cravos na mão, de bichas para a gasolina, de operários a falar durante horas na televisão, tudo ao som da cadência de governos sucessivos a cair ritmadamente, Portugal vai apagando-se da cena internacional. É triste! [...]
Mas calma. Não pode ser tão bom. Estamos demasiado bem para o nosso bem. Vem aí borrasca. E da grossa. Esta pasmaceira não pode durar. A característica "porreirinha" da nossa situação económica, política e social não é nem sadia nem natural. Vai virar, vai ser bonito! Estamos a atingir o limite. Existem várias maneiras de classificar o estado de uma nação, mas "está tudo numa boa" não é a mais sólida. Aqui há gato. Misturemos as metáforas. Ponhamo-nos a pau. Como dizem os ingleses "So you trust the Virgin, do you? Well, don't run then." Nós próprios dizemos que "Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas". E é verdade. Este período aparentemente folgado não é mais que um intervalo entre pauladas. É certo que os intervalos costumam ser mais curtos, mas se calhar o pauliteiro foi a Miranda ver a mãe. Descansem que ele já volta. Há-de vir com força redobrada. É só esperar pela pancada. [...]
O bem que se está em Portugal neste momento é como aquele calor abafado e morto que antecede uma tempestade. Vamos ser apanhados desprevenidos. Com a boca na botija do Halazon, a disfarçar o sabor do bagaço e do refogado na ânsia de alcançar um hálito mais europeu. Cuidado. Vai-se-nos entalar a mãozinha na urna do PSD e não a vamos poder tirar tão cedo. Vai ser um horror. Vai ser como antigamente. A câmara de vídeo vai ter de voltar para a loja, e o Zé e a Marieta para a casa dos pais e o bate-chapas para a célula da UDP e os fins-de-semana para o galheiro e as noites para a mercê da RTP e o Prof. Cavaco para o Algarve e Portugal inteiro para a fossa milenária onde sempre esteve metido e de onde provavelmente nunca deveria ter saído. É poético, não é?
K, nº9, O Arco da Velha: Portugal vai ser tão bom não foi?, Miguel Esteves Cardoso, Junho de 1991

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Vandalismo e destruição - A/C de Arménio Carlos e cª


La segunda jornada de la huelga de la minería finalizó con un paro total en las explotaciones y cortes de tráfico en las principales vías de comunicación que dejaron al Principado incomunicado durante varias horas. Los sindicatos calificaron de «completo éxito» las dos jornadas de protesta y los máximos dirigentes de las federaciones de la minería de CC OO y de Fitag-UGT celebrarán hoy una reunión en Mieres para analizar los paros y valorar la convocatoria de la Comisión de Seguimiento del Carbón, que tendrá lugar el próximo martes, en Madrid.
Como en la primera jornada, los trabajadores de la minería levantaron barricadas a primera hora de la mañana en la autovía del Cantábrico y en la autovía A-66, en la conexión con La Meseta, que provocaron caravanas kilométricas de vehículos. Unos 400 mineros leoneses cortaron el tráfico en la autopista del Huerna y mantuvieron cortada esta vía durante casi tres horas.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Coiso interrompido


Enumerar as trapalhadas acumuladas pelo governo no último ano seria fastidioso para o leitor e incompatível com a dimensão desta coluna. Fiquemo-nos por isso pelas da última semana, em que Passos Coelhos garantiu aos desempregados que não devem desperdiçar as oportunidades proporcionadas pela sua situação. É notório que o nosso primeiro sabe muito acerca de oportunidades (sendo que em geral não perde a de estar calado), nomeadamente as que lhe foram dadas por Ângelo Correia. 
Seguiu-se o senhor dos pastéis de nata e a sua mui freudiana alusão ao preocupante aumento do coiso, vocábulo de assinalável flexibilidade e polivalência, cujos usos são virtualmente inesgotáveis. Onde Passos viu hipóteses de empreendedorismo, quis Álvaro Santos Pereira demonstrar os dotes de oratória e criatividade semântica que fazem dele um dos produtos portugueses que todos gostaríamos de ver exportados. É difícil encontrar alguém tão competente na utilização do coiso. 
Sempre invejoso do protagonismo alheio, veio o ministro da espionagem intimidar uma jornalista do Público, sobre cuja vida privada parece estar bem informado, para os efeitos que se sabe e recorrendo aos métodos que se imaginam. Tendo as declarações de Relvas relativamente aos serviços secretos e ao seu ex-director sido tão cabalmente esclarecedoras, é apenas natural que se sinta incomodado quando alguém lhe sugere que elas estão cheias de incongruências. Felizmente acabou tudo em bem e o malicioso artigo onde elas eram esmiuçadas ficou numa gaveta. 
A isso se chama, na gíria jornalística, um coiso interrompido.  

Tudo no mundo acontece

“Foi golo?”, perguntou o Fausto, que não acreditava. “Foi”, fez o Marinho Sacadura. “Querias ópera?”
Cabeça baixa, beiços apertados para conter a parte menos nobre do vocabulário, o meu vizinho dirigiu-se ao cento e sete, tocou à campainha e pediu o lanche: era pão com marmelada. Lembro-me como se fosse hoje: de papo-seco na mão avançou para o quintal do Lopes e deitou tudo fora – lanche, raiva, ofensa.

Fernando Assis Pacheco, Memórias de um craque

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ahhh, se é assim tá bem

"Não me agradam as desocupações, mas todos os dias as temos: de famílias carenciadas que querem casas. Seria um precedente enorme. Não posso tratar este grupo de forma diferente do que trato essas famílias pobres"


Helena Roseta, vereadora da Habitação da Câmara Municipal de Lisboa.
Frase retirada daqui 

São Lázaro



Em Novembro de 2010, em dia de greve geral, um grupo de pessoas ocupou o número 94 da Rua de S. Lázaro, em Lisboa. Chamaram-lhe “casa do grevista” e ofereceram um jantar à luz de velas. Foram desalojadas pouco depois, a mando da C.M.L., que alegou ter para o prédio numerosos planos, daqueles que não podiam esperar. Reposta a devoluta normalidade, foi aquela parte do Desterro devolvida aos pombos.
Um ano e meio depois, o prédio continuava vazio e a autarquia, tão diligente a reclamar os seus direitos de propriedade, não se deu sequer ao trabalho de mudar a fechadura lá colocada pelos ocupantes. As janelas ficaram abertas, para que a fúria dos elementos se encarregasse do património municipal.
Um novo e alargado grupo de pessoas voltou ao lugar do crime no dia 25 de Abril para, num gesto de ressonâncias bíblicas, ressuscitar Lázaro. Encheram o edifício de vida e organizaram concertos, debates, exposições, oficinas e outras excentricidades, sem cobrar nada e com a porta aberta a quem aparecesse. Nada que sensibilize a atarefada vereadora da habitação, que, através da Polícia Municipal, intimou os ocupantes a deixar o edifício “limpo e devoluto” num prazo de dez dias.
Helena Roseta, que tem um arsenal de ideias de esquerda para a cidade, está aberta ao diálogo, nomeadamente para dizer o que é que não se pode fazer, escondendo-se atrás dos regulamentos e dos programas camarários, cujos méritos são visíveis quando se consulta a lista dos edifícios limpos e devolutos da C.M.L.
A autarquia ignorou durante anos a existência daquele prédio. Nada se perderá se continuar a fazê-lo. Os lisboetas saberão dar-lhe uso. 

Limpo e devoluto


domingo, 13 de maio de 2012

Elogio da Esquerda Radical grega


O meu artigo no i da última quinta-feira

Um boi não é um elefante, tal como um tigre não é um elefante, mas estes dois factos não permitem concluir que um boi e um tigre são uma e a mesma coisa. Lamentavelmente, é algo tão elementar como isto que a maioria dos comentadores políticos tem dificuldade em compreender, como mostrou a sua reacção às eleições gregas do último fim-de-semana. Os votos gregos, é sabido, permitiram à chamada Esquerda Radical (Syriza) obter um extraordinário resultado eleitoral e também permitiram a um partido neonazi entrar pela primeira vez no parlamento. Ora, a coincidência entre estes dois factos bastou para que a generalidade dos comentadores políticos viesse a terreiro alertar contra o perigo do extremismo, procurando meter a Esquerda Radical e os neonazis num mesmo saco.

Filiados numa tradição liberal que se tornou hegemónica nos últimos vinte anos e que, do centro-esquerda ao centro-direita, acreditou que o parlamentarismo político e o liberalismo económico norteariam a humanidade até ao fim dos seus dias, os nossos comentadores políticos parecem ter simplesmente perdido o norte. A actual crise mundial e a diminuição da credibilidade das narrativas liberais levam a posições terroristas que deveriam simplesmente envergonhar quem as assume. Porque o que os nossos comentadores nos estão a dizer sobre o extremismo dos gregos é, e traduzindo para a realidade portuguesa, que um Francisco Louçã e um skinhead Mário Machado sãao uma mesma e a mesma coisa.

Peço desculpa aos nossos comentadores, mas eu não compro esta argumentação. Bem sei que o debate em torno do totalitarismo fez o seu caminho durante o século XX. E até acrescentaria que nesse debate existem contributos importantes para quem, à esquerda, pretende travar um combate radical contra o liberalismo reinante e o fascismo emergente. Mas, e dito isto, é para mim claro que depois da queda do Muro de Berlim o debate em torno do totalitarismo acabou por ser cada vez mais reduzido a uma simples vulgata que tem servido quase simplesmente para combater a pluralidade de pontos de vista políticos. Nomeadamente, os pontos de vista de uma Esquerda Radical que os comentadores tentam sistematicamente desautorizar apresentando-a como expressão do tal monstro totalitário. 

Existem, além do mais, efeitos particularmente preocupantes que resultam do sucesso da vulgata anti-totalitária que hoje parece resumir a essência dos liberalismos. Um desses efeitos é a diminuição da capacidade de auto-crítica dos liberais. A tese de que os extremos se tocam tende a impedi-los de ver quão próximo o liberalismo esteve dos próprios extremos que denuncia. A tese não deixa que os liberais vejam a estreita colaboração entre grandes pensadores liberais como o economista Milton Friedman e regimes ditatoriais de extrema-direita como o de Pinochet. Não deixa também que os liberais se lembrem das relações de proximidade entre vários grupos e correntes liberais e as ditaduras de Hitler ou de Salazar. E, last but not the least, não deixa os nossos liberais recordarem que foi muitas vezes sob o signo do liberalismo, fosse ele de índole mais autoritária ou de tonalidade mais democrática, que teve lugar a aventura colonialista que aterrorizou uma grande parte do planeta. Não foram poucas as vezes que os liberais sacrificaram por completo os valores da democracia em nome da salvação do sagrado respeito pela propriedade privada.

Mas a vulgata anti-totalitária produz ainda um outro efeito não menos preocupante. Ao não hesitarem em dar como iguais a Esquerda Radical grega e o partido neonazi grego, mostrando tanto empenho na defesa do liberalismo económico (fortemente atacado pela Esquerda Radical) como na defesa do liberalismo político (fortemente atacado pela extrema-direita), os liberais de hoje não vêem os seus próprios erros actuais. Ávidos de irmanar a Esquerda Radical e a extrema-direita, os nossos liberais ignoram, por exemplo, que um dos pontos mais relevantes para a actual ascensão dos neonazis gregos (ou da extrema-direita francesa) é a crescente popularidade da sua mensagem de ódio aos imigrantes. E esquecem que neste particular aspecto, como em vários outros, as políticas levadas a cabo pelos partidos liberais do centro-esquerda e do centro-direita, na Grécia como na generalidade da Europa, estão bem mais próximas das políticas de repressão da extrema-direita. E se quem desta se demarca claramente é pelos nossos comentadores tido como radical, pois que então sejamos todos radicais. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Sol Nascente

Enquanto alguns músicos se contentam em fazer uma cançoneta contra o desperdício, que é uma espécie de hino não oficial do Ministério da esmola e da caridade social, em 1982 o artista plástico Joseph Beuys optou por inflamar Ronald Reagan com o slogan: «Queremos Sol em vez de Reagan». Em Maio de 2012 clamamos por uma repetição da história, renovando os votos de uma Primavera Global e um Verão quente e avassalador porque, como diria o Chullage, Já não dá para aguentar.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Subversivos promotores e publicitários radicais


 Vivemos tempos interessantes e uma pequena faísca basta para incendiar multidões. Quis o destino e uma profunda ausência de escrúpulos que, em pleno dia do trabalhador, o Departamento de Promoções do Pingo Doce se lembrasse de homenagear à sua maneira os operários mortos em Chicago, em 1886. O resto é o que se sabe: prateleiras esvaziadas num ápice, desacatos, confrontos, lojas fechadas, ruas cortadas e a intervenção da polícia. Passos Coelho, que prometeu mão pesada sobre quem promovesse tumultos através das redes sociais, sabe agora com o que está a lidar – subversivos promotores e publicitários radicais, que atiçam as massas e perturbam a ordem pública.
Não faltaram comentadores dispostos a garantir que se tratou de uma vitória simbólica do consumismo sobre a identidade de classe. Falta contudo algum fôlego a semelhante semiótica. Contra as sedutoras imagens veiculadas nos anúncios das grandes superfícies, onde a aquisição de mercadorias suscita sorrisos de despreocupado deleite e um brilhozinho nos olhos, vimos agora o pânico na cara de gerentes de loja, a raiva de quem perdeu um dia da sua vida para encher um carrinho de compras e a eminência de um total descontrolo da situação. Não terão sido poucos os clientes que imaginaram a possibilidade de desenvolver no futuro o espírito da promoção e obter um desconto de 100%.
Algo que não tirará o sono a Alexandre Soares dos Santos, reputado e abastado patriota, que conta com a autoridade do Estado para desencorajar tão criativa interpretação do seu marketing. É precisamente para isso que a Jerónimo Martins paga os seus impostos. Na Holanda.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Do supermercado enquanto espaço de conflito

Costumo fazer compras no Pingo Doce. Se a promoção fosse hoje, apenas não a aproveitaria por causa da confusão e, mais importante, porque a minha situação económica permite dispensar a adesão à campanha.

Algumas das análises produzidas em torno dos conflitos ontem verificados causam-me alguma perplexidade. Não percebo a suposta relação de incompatibilidade entre ir ao supermercado e participar na manifestação do 1.º de Maio, como se ambas se anulassem. Entre os milhares que ontem desfilaram na Almirante Reis (mais do que ano passado) certamente estariam pessoas que aproveitaram a sua manhã para ir às compras. Não se trata de consumismo, mas sim de fazer pela vida. 

Os conflitos entre consumidores do Pingo Doce são mais que ocasionais, constituindo uma herança do anterior regime legal. A proibição da abertura de hipermercados aos domingos e feriados levou algumas cadeias a reduzir as suas superfícies, garantindo assim o seu pleno funcionamento durante todos os dias da semana. A criação de espaços exíguos gerou, porém, dificuldades na mobilidade e na organização de filas, bem como aumentos do tempo de espera, ingredientes ideais para o bate-boca, o empurrão e a chapada. Imaginem tudo isto com o dobro ou triplo de pessoas…

Apesar de tudo, a afirmação do poder de cada um não se dirige apenas contra a pessoa do lado. Se o Pingo Doce recorre aos serviços da Polícia de Segurança Pública não será apenas por esta razão. De acordo com um estudo desenvolvido pelo Barómetro Anual Global do Furto no Retalho em 2009, os roubos em supermercados implicavam perdas no valor de 40 mil euros a cada hora que passava. Um valor que colocava Portugal nas primeiras posições do ranking e que nos permite observar a diversidade de relações de poder que se desenvolvem num espaço como um supermercado: relações de conflito e violência entre consumidores, entre estes e os trabalhadores de caixa, mas igualmente de cooperação entre os putos que tentam gamar qualquer coisa ou mesmo entre os putos e a trabalhadora de caixa, que, em violação da sua deontologia profissional, finge não reparar na obra dos meliantes. 

Algo que, dificilmente, poderá ser classificado como alienante ou conformista.

  

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Explodirão como bombas



Muito desejaria eu escrever sobre assuntos outros que não o aparelho repressivo do Estado, mas os tempos afiguram-se pouco próprios para o lirismo. Avisa-nos agora a PSP que duas pessoas juntas podem ser consideradas uma “manifestação não autorizada”, para justificar a acusação de “crime de desobediência” contra alguém que distribuía panfletos do Movimento Sem Emprego à porta de um centro de emprego.
Enquanto me esforço para manter ao largo todo e qualquer transeunte que tenha a nefasta ideia de se aproximar (os tempos são, recorde-se, de “tolerância zero”) e vou redigindo os necessários avisos prévios de todos os encontros planeados para a semana que começa (a dúvida inquieta-me: receberemos um comprovativo para provar aos zelosos agentes da autoridade que aquela troca de beijos no jardim seguiu os canais apropriados ou importa fazê-lo apenas no tribunal?), consulto um dos muitos textos subversivos que possuo na minha biblioteca.
Tem o inquietante título de “Constituição da República Portuguesa” e o que nele se dispõe fala-nos de um tempo e lugar remotos: 1. Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização. 2. A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação. (Artº 45).
Chegará porventura o dia em que, como profetizou Auden, os jovens poetas explodirão como bombas e percorreremos de noite os subúrbios em corridas de bicicletas. Os encontros deixarão talvez de constituir um acto subversivo. E os beijos serão, como devem ser, despreocupados e sem aviso prévio. Mas amanhã não será esse dia.
Maus tempos para o lirismo, no I on-line

(Abaixo está uma tradução muito minha e muito desajeitada do poema de W.H. Auden a que o texto faz referência. Não sei se já estava publicado em português. Talvez o nosso poeta-tradutor Miguel Óscar Cardoso o queira retocar...).


sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Poder da Fontinha


o meu artigo no i de quinta-feira



A Escola da Fontinha não é simplesmente nome de um projecto social, cultural ou educativo. Todos estes qualificativos são respeitáveis, sem dúvida alguma, mas temo que falhem o que de substancial se joga na Fontinha. A Escola da Fontinha é antes de mais, de onde eu a vejo, o nome de um projecto de poder (ou de anti-poder, se preferirem) que se caracteriza por assumir uma natureza económica e política radicalmente democrática (ou anarquista, se preferirem). E é isto que a singulariza.

Do ponto de vista económico, a Fontinha não é enquadrável em nenhuma das duas alternativas que tomaram conta do debate económico no espaço mediático dominante. Essas duas alternativas rezam que ou as coisas pertencem à ordem pública regida pelo Estado ou pertencem a uma esfera privada oleada pelos mecanismos de mercado. Este é um esquema que facilmente reconhecemos nos discursos partidários: mais à esquerda, falamos dos riscos da privatização das funções económicas e sociais do Estado; mais à direita, reclama-se que o Estado deixe a sociedade entregue à liberdade individual e mercantil.

O projecto Escola da Fontinha não pertence a este filme. O projecto não é determinado por objectivos mercantilistas, como reza a apologia das privatizações, segundo a qual a economia só pode funcionar se baseada num regime de competição em que todos lutem contra todos. E também não entende que o Estado seja a única alternativa a este regime liberal ou neoliberal. Na verdade, é bom de ver que o projecto da Escola da Fontinha procura antes de mais disputar o controlo de uma propriedade do Estado. Poder-se-ia também dizer, assim sendo, que o projecto da Escola da Fontinha – continue na Fontinha ou dissemine-se por outros pontos do país! – trava um combate contra o monopólio estatal da propriedade pública e contra a ideia de que a única alternativa ao Estado é a mercantilização da sociedade.

Dir-me-ão que este combate por um espaço autónomo tanto do Estado como do mercado não tem no projecto da Escola da Fontinha o seu único testemunho. É verdade. E basta ver que, na mesma semana em que o Estado procurou destruir o projecto da Escola da Fontinha, fez furor mediático a campanha “Zero Desperdício”. Esta campanha pretende que os restos alimentícios dos mais abastados cheguem à mesa dos menos afortunados, montando-se uma cadeia de distribuição de recursos que escapa tanto à esfera do mercado como ao planeamento do Estado. A campanha rege-se pelo seguinte princípio económico, a que deram voz alguns músicos portugueses: “O que eu não aproveito ao almoço e ao jantar, a ti deve dar jeito, temos que nos encontrar”.

Campanhas como esta proliferarão nos próximos tempos à medida que a crise se intensifica. E é também por isso que um projecto como o da Escola da Fontinha é tão importante. Porque se a Escola da Fontinha partilha com campanhas como o “Zero Desperdício” a ideia de que é necessário construir territórios e redes sociais autónomas do Estado e do mercado, distingue-se radicalmente pelo elemento político que a constitui: na Escola da Fontinha não se trata de ajudar a população empobrecida do bairro, mas de construir um projecto que se pretende baseado no exercício de uma democracia que determina o que se faz, como se faz, quem faz, num plano de igualdade entre tudo e todos os que participem no processo, sem hierarquias, sem líderes e sem cantautores que por misericórdia deixam os restos da sua refeição para os pobres. Rita Blanco, uma das poucas vozes do mundo do espectáculo que veio criticar o paternalismo miserável da campanha “Zero Desperdício”, não podia ser mais justa nas suas palavras: «Estamos a voltar ao antigamente, com coisas muito semelhantes. Ninguém pode viver à mercê da boa vontade dos outros. Surpreende-me a capacidade de movimentação para estes movimentos (de dito apoio social e solidário), mas não para discutir as leis e lutar pelos direitos das pessoas. Esta caridadezinha não é liberdade, isso é capitalismo selvagem». 

Em suma, o projecto da Fontinha cria uma oportunidade para uma prática absoluta da democracia, recusando que a nossa sorte seja abandonada quer às mãos do patrão e do Estado quer aos apetites dos mais ricos.   

terça-feira, 24 de abril de 2012

Política do cognitariado


As notas que se seguem prolongam um debate conjunto. Seguem algumas pistas deixadas em aberto na reunião/debate do passado domingo, organizada pela Unipop, em colaboração com o C.E.M., no Seu Vicente – Residências artísticas.
É claro – sendo esse um dos pontos de partida da discussão proposta – que só é possível pensar a precariedade do cognitariado e a possibilidade de combatê-la tendo em consideração as condições específicas a que estão hoje sujeitos os agentes da produção imaterial, investigadores, bolseiros ou não, professores, mais ou menos intermitentemente, artistas, etc. (flexibilidade, mobilidade, intermitência...).
Acrescentaria no entanto que se faz sentido pensar especificamente a política do cognitariado – nomeadamente, tendo em vista a criação de laços de entendimento, de solidariedade, de eventual acção conjunto (reivindicativa, mas não só) – faz talvez sentido alargar a compreensão desta especificidade, do reconhecimento daquilo que partilham os produtores imateriais no que toca às condições a que estão sujeitos, ao reconhecimento das forças que intervêm no seio da produção imaterial (que abrange, nomeadamente, as áreas da investigação e da produção artística).
Considerar estas duas vertentes dessa especificidade, o «quadro» e o «teor», se quisermos, da produção imaterial – sem complexos ou superstições na articulação de conceitos sociopolíticos e estéticos – seria talvez vantajoso para fazer face ao pressentimento desencorajante que poderá assaltar um investigador, um artista, de que o seu trabalho – enquanto investigador, enquanto artista – nada tem a ver com as preocupações que partilha com outros agentes de produção imaterial sujeitos a semelhantes condições de trabalho.  Creio que um tal pressentimento, e o desânimo que o acompanha, pode e deve ser desconstruído. Que, para tal, trabalho possa significar coisas distintas (ou que num dos casos se deva escolher outra palavra) não nos deve assustar.
Por outras palavras, diria que os laços que unem os produtores imateriais não concernem apenas àquilo que nos torna precários, mas também ao modo como o que já fazemos, cada um de nós, pode animar o que podemos fazer, em conjunto, contra essa precarização.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Abril de novo


As imagens e relatos que nos chegaram do Alto da Fontinha, na antiga, mui nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto, reafirmam o estado de excepção em que vivemos.
A polícia voltou a espalhar democracia, desta vez com direito a livros e material diverso empilhado num pátio, à espera de um purificador auto de fé, juntamente com uma esclarecedora apreensão de câmaras de filmar e fotografar, para que a grotesca face da repressão não surgisse em toda a sua bestialidade. Parece não ser ainda oportuno autorizar a eliminação de testemunhas oculares, algo com que os fantásticos juristas pátrios se poderão entreter num futuro próximo. Aguardemos pelos próximos relatórios do SIS para descobrir que inconfessáveis crimes se preparavam para cometer os ocupantes.
Espaços como a Es.Col.A, subtraídos ao abandono e à voragem da especulação imobiliária, onde existe a possibilidade de organizar actividades gratuitas e desenvolver uma sociabilidade fora da esfera do mercado, são um alvo óbvio para quem odeia a perigosa combinação entre liberdade e auto-organização em meios populares. Esta gente pobre a quem se procura fazer engolir, com cassetetes e mentiras várias, o pão amargo da austeridade, poderia sentir-se contagiada por semelhante desaforo e lembrar-se de coisas tão simples como a Revolução que, ainda não há 38 anos, fez tremer os gordurosos senhores desta terra.  A resposta ao desalojo selvagem decretado por Rui Rio é simples e segue dentro de momentos. Ao fim e ao cabo, também foi para isso que se fez o 25 de Abril.

sábado, 21 de abril de 2012

Todos contra o despejo da Es.Col.A

As próximas concentrações em Lisboa, em solidariedade com a Es.Col.A da Fontinha e de repúdio pelo despejo.
Hoje, sexta-feira: 18h no Lag. de Camões
Amanhã, sábado: 19h no Lg. de Camões


Não se pode despejar uma ideia!
 
 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Se ainda escutas a alegria de viver ouvirás o sinal para ficar


Declaração Conjunta de Apoio ao Es.Col.A do Alto da Fontinha, que partiu do Gato Vadio
Lá do Alto da Fontinha dá vontade de planar. Vê-se outra cidade a ser construída. Tijolo a tijolo, dia-a-dia, mão a mão, sorriso a sorriso. Aquilo que parecia um abismo – uma escola vazia, abandonada e arruinada – tornou-se o próprio espaço do sonho.
Com os pés assentes na terra, constrói-se a solidariedade, o espírito comunitário, uma ideia de utilidade pública alicerçada na ajuda mútua e na partilha livre do conhecimento. Ali faz-se ainda a democracia directa e participativa que falta. Ali aprende-se a estar vivo. Ali vê-se que a crise que nos quer amedrontados e pieguinhas, foge a sete pés. Não, nem a crise, nem um rio seco e sequioso, nem as cajadadas dos falsos democratas, vão estancar o fluxo desta Fontinha...
Neste momento decisivo, por uma exigência recíproca, cada um deve colocar ao outro as questões humanas e colectivas essenciais.
Esta declaração conjunta de apoio ao Es.Col.A já foi abraçada por vinte e dois colectivos e associações de vários pontos do país, e está aberta a mais adesões de quem quiser e quando quiser. Escreve-nos!
Lá do alto, diremos à cidade que rejeitamos o despejo decretado pela actual gestão do Município do Porto e estenderemos a mão a quem veio por bem e para ficar.

Assinam,

AIT/SP - Núcleo do Porto e Chaves
Assembleia Popular do Porto
Assembleia Popular de Coimbra
Associação Casa da Achada - Centro Mário Dionísio (Lisboa)
... Casa da Horta - associação cultural
Casaviva Projecto
Centro de Cultura Libertária (Almada)
Colectivo Hipátia
Gap - Grupo de Acção Palestina
Indignados Lisboa
AJA Norte - Associação José Afonso
Gato Vadio Livraria
Marcha Mundial das Mulheres
Partido Humanista
Revista Rubra
Associação SAPATO 43
Terra Viva
Traga Mundos
Tribuna Socialista
Uniao Operaria Nacional
UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta

sábado, 14 de abril de 2012

Resposta ao João Rodrigues

O João Rodrigues ficou chateado com o meu artigo. Mas eu acho que ele não tem razão. Que fazer? Comecemos pelo essencial e deixemos o acessório para o fim. O João Rodrigues acha que exagero na crítica ao seu patriotismo. A mim parece claro que a política defendida pelo João Rodrigues assume um pendor cada vez mais patriótico e cada vez menos internacionalista. Por que entendo as coisas assim? Porque vejo o João a propor uma desglobalização, quando eu sempre pensei que o problema era a globalização mercantil e não simplesmente a globalização. Desmercantilizar a globalização, claro que sim, mas desglobalizar é uma palavra de ordem muito diferente. E é uma palavra que se arrisca a por tudo no mesmo saco, o movimento de mercadorias e o de pessoas, o livre-cambismo e o cosmopolitismo, a globalização neoliberal e o internacionalismo de classe. Infelizmente o internacionalismo do João Rodrigues é cada vez mais uma forma de mediação entre sentimentos nacionais e não uma forma de ler e agir no mundo transversal a esses sentimentos. Ao internacionalismo do João poderíamos chamar um internacionalismo nacionalista. É pelo menos neste sentido que leio a sua proposta para que em vez de internacional passemos a escrever inter-nacional, isto dito entre vivas aos hinos nacionais e à soberania nacional, que me parecem querer continuar em França, via Mélenchon, o ido projecto alegrista que animou o João e os seus colegas de blogue. (Embora deva dizer que a candidatura de Mélenchon é evidentemente bem mais interessante do que a de Alegre, o que ainda assim deveria evitar histerismos personalistas que não têm cabimento em qualquer projecto de esquerda que se preze, ao contrário do que parece querer demonstrar o Nuno Teles).

Há uma outra questão importante no post do João Rodrigues que gostaria de comentar. O título do post é “Nem nada”, em referência ao título do meu artigo “Nem Crise Mundial, nem Solução Patriótica”. É um título, o do João, que é feliz enquanto sound-byte e os títulos também são isso, por certo que o são. Mas enquanto programa de argumento, é mau. É mau, em primeiro lugar, porque revela uma concepção enfraquecida do que possa ser criticar. O João Rodrigues parece exigir que eu, para criticar, tenha uma alternativa concreta a oferecer. Temo que o João esteja a aplicar a mim o tipo de argumento que os Camilos Lourenços tantas vezes aplicam ao próprio João Rodrigues e que no fundo reza assim: “falam mal do capitalismo mas não têm alternativa”. Ora, o que o João parece presumir, tal como o Camilo Lourenço e afins pressupõem em relação ao João, é que criticar é simplesmente dizer mal. Presumem que a crítica não é em si mesmo construtiva. Eu não vejo a crítica como uma simples denúncia e por isso não creio que ela seja menos construtiva do que as alternativas concretas que o João vai propondo. Depois, há aqui um segundo problema, tão grande, se não maior, do que o primeiro. É que o João Rodrigues só pode presumir que eu não procuro alternativas concretas porque ele entende que isso só se faz do modo como ele o faz. E que modo é esse? Intervindo num partido enquanto dirigente ou no espaço publicado enquanto intelectual. Eu também já fui um pouco assim e se calhar ainda sou. Mas já não acredito em alternativas concretas pré-fabricadas e creio que isso é coisa que devemos dispensar liminarmente, pelo menos no quadro de uma política democrática, defina-se como revolucionária ou como reformista. Prefiro mil vezes ouvir o João Rodrigues em detrimento do Camilo Lourenço, mas não reduzo a questão das alternativas concretas ao modo como o João entende o que possam ser lutas contra-hegemónicas.

Não vejo o meu próprio papel como o de alguém que por escrever num jornal ou ser especialista nisto ou naquilo tem mais responsabilidade em propor alternativas concretas do que os outros cidadãos. Esse papel “responsável” é o que o João Rodrigues vem assumindo, no quadro de uma sua leitura do que será um projecto contra-hegemónico. Que leitura é esta? O João dá grande importância ao confronto entre o que ele considera serem os intelectuais. A sua maneira de ver a ascensão do neoliberalismo é a esse respeito muito clara. Ele concede muita importância ao pensamento de alguns autores que há décadas terão começado a construir um programa ideológico que hoje é finalmente aplicável (a narrativa do João para a ascensão do neoliberalismo é mais complexa do que isto, claro, mas sublinha muito – em demasia, diria eu – este ponto). Eu acho que a história do neoliberalismo, não dispensando essa dimensão intelectual da história do pensamento económico e político, e devendo ser uma história das ideias, deverá sê-lo dirigindo a problemática das ideias não apenas (ou primeiro) aos intelectuais como Hayek e demais. Deverá ser também uma história social das ideias. E em consequência (ou como causa) acho que um projecto contra-hegemónico não passa tanto por criar os futuros Hayeks de esquerda mas por agir e pensar a acção política e o pensamento político aquém e além da “responsabilidade” de dirigentes e "pensadores" (e por isso não tenho simpatia nenhuma pela estratégia educação popular de Mélenchon, que o Nuno Teles tanto aprecia, mesmo se também eu votaria em Mélenchon caso pudesse votar nas eleições francesas).

Finalmente, a questão menor, que, porém, parece ser a única que verdadeiramente empertigou o João Rodrigues. Acha o João que eu deveria ter nomeado individualmente os economistas que dirigem a edição portuguesa do “Le monde diplomatique” e não simplesmente ter referido o grupo de economistas do “Le monde diplomatique”. Tudo bem. Se o João entende que isso é importante para tornar o debate mais interessante, passarei a fazer como ele manda. Seja como for, não creio que esta questão seja motivo para tanto azedume. Depois, bom, depois diz o João Rodrigues que engano os leitores ao afirmar que há uma linha dominante dessa publicação que é determinada por esses economistas quando na verdade existirá uma pluralidade de pontos de vista de esquerda expressos no jornal em questão. Sim, é claro que há outros economistas a escrever no jornal em questão (por regra o jornal tenta ter uma pessoa do PS, uma do PCP e outra do BE, parece-me), mas creio também (de facto, não fui contar) que o João Rodrigues e o Nuno Teles são os autores mais regulares do jornal e que em grande medida (foi a expressão que utilizei no artigo) marcam a linha política da publicação. Não há é qualquer problema nisto, pelo menos para quem não faz parte do jornal. Devo até dizer ao João Rodrigues e ao Nuno Teles que um dos motivos porque continuo a pensar comprar o jornal é justamente o facto de saber que aí encontro publicada, muito provavelmente, a opinião destes meus bons amigos economistas. Com os quais tantas vezes discordo mas que sempre tento acompanhar de perto.

Levanta-te e declara-te um internacionalista!



quinta-feira, 12 de abril de 2012

Nem Crise Mundial Nem Solução Patriótica

(o meu artigo no i desta quinta-feira)

Há um pequeno grupo de quatro ou cinco economistas de esquerda cujo trabalho é importante acompanharmos por estes dias de crise. A melhor forma de o fazermos é seguindo a edição portuguesa do Le Monde Diplomatique, publicação que tem assumido uma linha política em grande medida determinada por aqueles economistas. Hoje em dia essa linha passa sobretudo pela defesa da seguinte ideia: uma saída pela esquerda da actual crise implica uma tomada de posição patriótica.

A hipótese desenvolve-se em cinco passos. 1) A globalização actual é uma máquina de produção de desigualdades nacionais à escala do mundo e de desigualdades sociais no interior de cada nação. 2) Deveremos por isso tomar distância em relação a essa máquina global, deixando o euro e adoptando uma moeda própria, com todas as possibilidades de política financeira e económica que daí resultam. 3) Estas possibilidades podem ser aproveitadas de modo a que, forçados pela privação resultante da desconexão parcial com o sistema mundial, desenvolvamos capacidades novas que julgávamos perdidas, para este efeito adoptando-se uma política industrial activa. 4) Ao mesmo tempo, acrescente-se, será possível irmos combatendo a desigualdade social no interior da nação, combate importante para elevarmos os níveis de confiança interpessoal da comunidade nacional e, também, para a própria regeneração da economia por via do consumo interno. 5) Finalmente, poderemos, atingido um certo nível de crescimento económico, regressar ao sistema mundial, talvez até tornando-o um pouco mais justo.

Esta é, creio, uma proposta interessante, desde logo porque tenta romper com a tendência em que boa parte da esquerda tem vindo a ser, nas actuais circunstâncias, aceleradamente atolada: a contínua defesa de direitos continuamente perdidos de luta em luta até à perdição final.

Mas é também, ainda assim, uma proposta que deve ser recusada sem qualquer hesitação.

Se me é permitido atalhar caminho, e correndo o risco de estabelecer uma comparação injusta para os nossos economistas de esquerda, diria que devemos recusar a proposta por motivos não muito diversos dos que nos levam a resistir ao argumento do governo de Passos Coelho segundo o qual as actuais políticas de austeridade são apenas medidas sacrificiais que, no futuro, e uma vez saldada a dívida, permitirão ao país recuperar a sua soberania e reactivar a democracia entretanto suspensa por ordens externas.

Em ambos os casos há uma desistência em relação à actualidade política europeia.

Passos Coelho desiste porque despolitiza a Europa obedecendo-lhe caninamente: para Passos Coelho, da Europa surgem apenas ordens que ele terá que cumprir, não se lhe ocorrendo participar politicamente no espaço europeu, por exemplo discordando do que diz ser-lhe imposto, por exemplo.

Já a proposta dos nossos economistas de esquerda acaba também por fazer acreditar que o espaço europeu não é mais susceptível de intervenção política, refugiando-se eles, por isso, no espaço nacional. Não se refugiam, note-se, por terem desistido da política em favor da economia, como Passos Coelho, mas porque querem – e bem – retomar a política como factor que determina a economia. O problema está em que desprezam a possibilidade de uma política económica europeia combater o desemprego, a desigualdade e a pobreza. Dirão os nossos amigos economistas que tal política europeia é uma utopia, mas não há nenhum motivo – pelo menos para quem não tenha uma crença nacionalista que o anime – para julgar que o tamanho dessa utopia seja menor porque a imaginamos apenas aplicável a Portugal. Se o ministro das Finanças de Portugal tem tantos laços de afinidade com o ministro das Finanças alemão, não há nenhum motivo para que os trabalhadores portugueses e as suas organizações não se irmanem com os seus congéneres da Alemanha.